O Sofrimento de Betty Davis

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Ela não ousou abrir a carta. Já sabia qual era o significado de tudo aquilo e não precisava de mais motivos para sofrer. Desde que ele partira, sua vida era apenas solidão e quando o carteiro chegou sabia a verdade: ele não voltaria nunca mais. Era ele quem deveria estar ali para receber a correspondência. Era sempre para ele.

Ficou ainda uns instantes olhando a carta, chorando. Agarrou o pedaço de papel e o despedaçou com violência, jogando no chão os restos mortais daquela traição. O conteúdo da carta era irrelevante. O ódio que ela tinha era pelo significado. Mais cedo, quando ouviu a movimentação no lado de fora da porta, se sentiu feliz. Queria pedir perdão e se atirar nos braços dele. Por favor, não vá, ela diria. E ele ficaria ali com ela para sempre. Mas chegando na porta, reconheceu o carteiro. Ao ver a carta sendo passada pelo buraco na porta, quis gritar. E, para ser bem franca, tinha gritado mesmo.

Caiu no chão, entre os pedaços de papel picado e ficou ali até anoitecer.

Foi quando ouviu um barulho familiar: a chave na fechadura. Levantou e o viu passando pela porta, sorridente como se nada tivesse acontecido. Sem se conter, ela se atirou nos braços deles e lhe deu um beijo molhado no rosto. Ele riu, fazendo carinho em sua cabeça.

"Calma Betinha, eu só fui na padaria... Já estou de volta", ele disse, enquanto ela se aninhava em seus pés para tirar mais uma soneca.

O Sofrimento de Betty DavisWhere stories live. Discover now