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Está demasiado escuro para ver alguma coisa. Sob um grito abafado tento me libertar, mas os meus pulsos estão presos à maca. Entro em choque. Não, outra vez não. Grito pelo que sei que vai acontecer, grito pela dor agonizante que sei que vou sentir no momento em que a injecção espetar-se no meu braço.

O homem de bata aproxima-se de mim com a agulha na mão. Reparo no verde do líquido dentro dela e estremeço. Penso em fugir, contudo estou imobilizada. Não tenho para onde ir. Lentamente, arregaça-me a manga do braço esquerdo o suficiente para ter acesso às minhas veias. Sem qualquer dificuldade, visto que já o fez comigo e com todas as outras crianças, insere a agulha na minha veia a pulsar. O líquido entra frio. Sinto-o a espalhar-se com um temor que quase me bloqueia a respiração. Espero pelo pior.

Mas é então que me apercebo de que algo não está bem. Sinto uma pontada no âmago e na consciência. Eu estou a sonhar, penso para mim. Quase automaticamente, o medo dissipa-se. Tudo em meu redor pára no tempo. Levanto-me da maca e olho em volta. Então dou por ele – Amriel. Também ele se encontra congelado no tempo, um sorriso aterrador preso nos seus lábios.

Um toque no ombro desperta-me. Acordo a transpirar.

O meu primeiro instinto é colocar a mão sobre o braço esquerdo para me assegurar que está tudo bem. Demoro alguns segundos a regularizar a minha respiração e a aperceber-me que realmente estou acordada.

Tocam-me novamente. Um grito prepara-se para sair da minha boca no exacto momento em que alguém a cobre com a mão. Abro os olhos em choque para encontrar Kai a observar-me com um ar neutro.

– Em cinco minutos, vai ter comigo lá fora. – Sem acrescentar mais, sai do quarto.

Continuo deitada com o coração aos pulos. No relógio da parede indica que passa pouco das três. Mas que raio se está a passar com este rapaz? O que acabou de acontecer?

A custo, levanto-me. Visto as calças e calço as botas o mais rápido que posso.

Kai espera-me, descontraidamente, encostado à parede do corredor. Com a iluminação sobre ele, parece menos apavorante. Está todo vestido de preto, o que lhe destaca mais os olhos. Uma athame está guardada no coldre preso em redor da coxa direita e uma pistola no que lhe circunda a cintura. Um cheiro doce e perfumado chega até mim. Denoto que o seu cabelo está molhado, deixando-o ainda mais escuro e desgrenhado.

Quando dá pela minha presença, o seu olhar percorre-me dos pés à cabeça. Interrogo-me sobre o que ele estará a pensar, mas não consigo sequer formar uma ideia.

Não precisa de falar para eu saber que o devo seguir. Percorremos o longo corredor, viramos à esquerda para parar em frente de uma porta de metal. A tinta começou a descascar dando lugar à ferrugem.

Kai agarra num dos casacos que estão pendurados num bengaleiro velho e atira-mo.

– Veste-o. Nós vamos para a rua.

O meu coração salta um batimento. Rua. Imagino se vou ter alguma oportunidade. Sei que se aparecer tenho de a agarrar da melhor forma possível. Correr e não olhar para trás. Por isso, sem contestar, visto o casaco. É de algodão e, como toda a roupa que envergo, também me fica grande.

Kai abre a porta e uma brisa fria entra pelo espaço. Encobertos pela negritude, subimos um vão de escadas para nos depararmos com outra porta. Estamos na entrada de um prédio antigo. O meu coração dá um pulo com o entusiasmo, com a expectativa de estar certa.

Para lá da porta, olho para a estrada pouco discernível com fissuras e buracos provocados pelos elementos naturais e a degradação. A maioria dos edifícios, em nosso redor, estão precariamente a susterem-se sobre o seu próprio peso. As portas destes são meros restos de madeira podre e metal enferrujado, as janelas buracos vazios que dão plena visão para o nada.

Filhos das RuínasWhere stories live. Discover now