Epílogo

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O tempo estava passando de forma mais lenta do que a ordem natural permitia. Não era um desejo, mas precisei usar a blusa de Christopher junto a um casaco, que estava na trouxa que Ramon deixara, para me abrigar ou realmente morreria de frio. Por mais que eu estivesse fraca e desesperada era bizarro o quanto eu realmente estava suportando temperaturas tão absurdas ou mesmo ferimentos graves sem desabar de vez. Não havia explicações coerentes, eu só conseguia pensar que talvez os deuses ainda não tivessem me abandonado.

Caminhei durante muito tempo e tentei economizar a comida que ganhara e principalmente a água. Não sabia por quanto tempo ficaria ali, mas já temia o pior. Se é que poderia piorar. Estava sozinha, com medo e não era apenas de Mahlars, eu também não fazia ideia do que poderia encontrar naquele gelo. Mas de uma coisa eu tinha certeza, ali era melhor do que naquela prisão, entregue como um fantoche para o sadismo daquele bruxo.

Com o mapa de Buu em mãos afastei um pouco de neve da folha, tentei me encontrar e seguir uma localização, mas eu não conseguia já que eu mal sabia onde estava para ter um ponto de partida.

Acredito que se passara uns três dias, era difícil ter noção do tempo já que a paisagem era quase sempre fria e escura. Não havia Sol, a neblina cobria boa parte do céu e da pouca claridade que raras vezes pude observar. Eu já era o retrato mais profundo do caos, a comida acabara a horas e só restara um pequeno gole de água que eu vinha tentando evitar para o momento em que realmente fosse preciso. Meus olhos estavam inchados pelo choro que não contive, chorei por minha situação, chorei pelo medo, chorei pelo desespero e pela tristeza do que acontecera comigo.

A única coisa boa daquele gelo era que ele não me deixava sentir meus ferimentos já que meus músculos estavam dormentes. Esse também era um problema, pois eu poderia estar perto de perder um membro e não ter ideia. Praticamente o sono foi inexistente, tanto pelo frio e pelo medo de ser encontrada, quanto por não ter como simplesmente dormir à deriva. Não havia condições nem meios de fazer fogo. Se não fossem os cochilos de poucos minutos – por necessidade – eu já teria desabado.

Segui as cegas em linha reta, clamando aos deuses por ajuda, mas não fui atendida. Meu corpo já sentia com mais intensidade cada uma das batalhas que enfrentei desde a missão, ao encontro com Mahlars e a caminhada pelo gelo. Meus pés arrastavam na neve e eu sentia que a morte estava próxima.

Apesar de tudo a traição de Benjamin, Alec e principalmente de Christopher me atormentava, era o que mais rondava meus pensamentos e faziam mais lágrimas virem aos olhos. Sem esperanças, cheguei a uma parte do caminho um pouco diferente. Havia uma grande colina em meio a neve, o topo se perdia entre a neblina como uma muralha, mas estranhamente me parecia familiar. Puxei o mapa e analisei o cenário, um dos desenhos capturou minha atenção com tamanha semelhança aquele lugar. Era o último que eu havia desenhado, o que eu não finalizara. Respirei fundo, se aquilo estivesse correto, significava que ali havia um reino ou uma cidade, não importava, qualquer coisa era válida.

Ajeitei o capuz e com dificuldade, usando as mãos, me pus a escalar. O oxigênio foi tornando-se mais denso conforme alcançava certas alturas e preferi não olhar para baixo ou desistiria daquele loucura. No entanto segui, agradecendo pela colina ser inclinada ao ponto de me permitir subir sem grandes problemas além dos óbvios. Até que por fim o solo alinhou-se e pude me manter de pé. Ofegante observei com um brilho nos olhos uma espécie de casa submersa na neve, apenas sua entrada estava visível e uma luz alaranjada saía de lá. Não era uma cidade, muito menos um reino, mas ao menos me parecia o lugar ideal para pedir ajuda.

O alívio estava prestes a alcançar meus ombros, meus dentes ainda batiam sem parar em meio ao frio. Observei que não havia portas na casa, apenas a entrada aberta e convidativa. Forçando a vista observei alguns objetos empilhados, demorei para perceber que eram inúmeras caixas de madeira. Nesse instante alguns homens surgiram na entrada e pareceram observar o cenário.

Meu coração deu um baque quase surdo e minha testa franziu quando os reconheci. Me abaixei em meio a neve para não ser vista. Não era um lugar para pedir ajuda, era a extensão do inferno onde fiquei. Eu não precisava de mais nada para me confirmar, estava diante da prisão escondida de Mahlars. A mesma onde Calliça era mantida prisioneira, onde eu estivera também por meio de minha visão. Eu conhecia o lugar e conhecia os homens.

Isso significava problemas, muitos problemas. De todos os lugares para onde eu poderia ter ido, aquele era o pior. Mas eu nunca me sentira tão feliz como estava. Aquele era o lugar que Ágatha vinha procurando a tempos sem êxito e eu havia encontrado por acaso. Não sabia como, mas estar tão perto de Calliça, sabendo que ela estava a poucos metros me deu um novo motivo para lutar, uma nova esperança para viver. Ainda que me faltasse forças.

Estava parada, observando os homens lá embaixo, enquanto formulava um plano suicida, já que eu sabia que era uma péssima ideia fazer aquilo sozinha e no meu estado atual. Porém eu não conseguiria ir embora dali sabendo que deixei Calliça para trás, após tantos anos de sofrimento para ela e de lutas em vão para o meu reino. Minhas mãos fecharam-se, eu deveria estar louca, mas uma força me dominava para ir em frente.

Estava prestes a descer a colina quando algo repentinamente acertou minha cabeça com força, minha visão escureceu e eu desabei. Ouvi passos próximos, mas meus olhos já estavam fechando, sem forças. Até que finalmente me entreguei a escuridão sem saber o que havia acontecido, sem ter noção do que seria de meu futuro ou de quem fizera isso comigo.

O nome de Mahlars atravessou minha mente uma última vez, enquanto eu me sentia, novamente, completamente perdida!

Fim!

O Mistério de Allíshya - Perdida | Livro 03Leia esta história GRATUITAMENTE!