Capítulo 1

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Santo Expedito, 20 de dezembro de 2013, férias de verão

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Santo Expedito, 20 de dezembro de 2013, férias de verão.

Alana pensou em interrompê-la, mas só suspirou. Não era possível que alguém falasse tanto sem se cansar.

"E nesse dia também, o meu irmão perguntou pra ela o que ela achava dele e tal... e aí ficou..."

Toda vez que ia a Santo Expedito para passar as férias com a família, a mesma coisa acontecia. Daniele, sua melhor amiga e nativa da cidadezinha litorânea, derramava sobre ela todas as novidades que conseguisse se lembrar.

A situação se tornava cansativa após alguns minutos, mas em geral se encerrava no primeiro dia. Era um hábito chato, mas nada que atrapalhasse a amizade. Depois dessa fase, Daniele se mostrava a melhor companhia que alguém poderia pedir. Ambas tinham a mesma idade, 19 anos, e mesmo Alana sendo da capital, elas possuíam muitos interesses em comum. Tinham a certeza que estudariam Economia juntas um dia.

Só que já havia se passado três anos desde a última vez que estivera em Santo Expedito e as novidades se acumularam, fazendo com que o falatório perdurasse por vários dias. Alana mal conseguia disfarçar que não estava mais prestando atenção.

Isso alimentava sua ansiedade para chegarem logo ao Festival Anual da Praia de Santo Expedito. Iriam tomar algumas bebidas, encontrar outras meninas, gente bonita e ouvir as músicas antigas das cidades grandes que ainda faziam sucesso ali.

A noite tinha de tudo para ser agradável. Pensando nisso, uma ideia ousada lhe veio à cabeça. "Dani, vamo pelo atalho da estrada velha?"

"Ué, sério? Mas cê não queria passar pelo Patrick não?"

"Ah, deixa para lá. A gente encontra com ele lá na praia mesmo." Apesar de estar disposta a tomar a iniciativa após três anos sem vê-lo, bater na porta de sua casa seria um ato desesperado. Seu plano era passar pela frente de sua janela para que ele a visse. Era só um plano bobo para deixa-lo curioso.

De qualquer forma, indo pela estrada velha chegaria mais rápido, teria mais tempo para beber e aproveitar a festa antes de se encontrarem.

Daniele deu de ombros, mas Alana sabia que ela não gostava da ideia de passar pelo atalho. O caminho ficava perto demais do brejo e algumas partes da estrada ficavam bem escuras. Fora que havia toda uma mística de cidade pequena, que pais e avós supersticiosos inseriam nas cabeças das crianças. Mulher que vira porco, lobisomens, demônios que perambulam à noite em busca de meninas virgens...

Após alguns minutos caminhando pelo atalho, Daniele ajeitou o cabelo cacheado para trás e olhou por cima dos ombros. Repetiu os mesmos gestos diversas vezes, cada vez olhando para um lado. Escondeu os lábios carnudos dentro da boca e manteve os olhos verdes arregalados.

Ah-há! Depois eu que sou a fresca, pensou, rindo um pouco por dentro.

O comportamento era o mesmo que o de uma criança assustada. Até com a torrente de fofocas ela parou.

Alana, por sua vez, adorava o tom bucólico daquela parte da cidade. A estrada estava sempre um tanto úmida, o que fazia com que o cheiro da terra exalasse com vigor. Sentia que a natureza havia preparado um incenso exclusivamente para agradá-la. Inspirou fundo, regozijando-se com o presente recebido. O coaxar que vinha do brejo assentava a sensação de conexão com o natural, que era o que buscava em Santo Expedito, após passar tanto tempo remoendo suas mágoas, fechada num quarto.

"O seu pai voltou a falar com o Senhor Vandré?" Daniele perguntou. Estava tão mergulhada na caminhada que nem reparou que aproximavam da casa do antigo melhor amigo de seu pai.

Cinco anos antes eles tinham brigado por causa de alguma besteira, alguém que deixara de levar uma caixa de cerveja para uma festa do outro ou coisa parecida. Alana procurava não se importar muito com esse tipo de problema. Também havia outra situação que complicava uma reaproximação entre as famílias: Juliana, sua irmã mais velha, namorara o filho dos Oliveira, Maicon. Eles ainda mantinham contato por celular, mas Ju lhe dissera que sempre que se encontravam, uma nuvem de tensão subia ao redor dos dois. Adorava o ex-cunhado e achava o término dos dois uma pena.

"Eles até que se falam, mas não acho que vão voltar a ser amigos."

A casa estava tão quieta que até parecia morta. E isso era raro, a família dos Oliveira estava acostumada a grandes festanças, ainda mais perto do Natal.

Do outro lado da rua, no terreno oposto ao do tio, reparou em algo que nunca lhe chamara a atenção antes. Resquícios de um casarão destruído ou talvez uma construção deixada pela metade, o que era mais provável. O terreno era grande e os fundos chegavam a tocar o brejo.

Por entre os escombros das paredes, brancas como ossos, um ponto vermelho e luminoso agredia a escuridão.

O coração de Alana veio à boca, trazendo um grito a reboque. Travou-o na garganta, liberando apenas um soluço desajeitado.

Que coisa mais estranha.

A luzinha vermelha se moveu, amparada por uma fumaça branca e espessa. Um homem fumava do lado de fora dos escombros, encostado contra os restos de uma parede. Sentiu o gosto de alcatrão na ponta da língua e desviou o olhar de forma brusca.

Daniele, ao seu lado, contorcia o rosto numa careta. "O que foi?"

"Na- ... nada. Não foi nada."

"Cê tá mais branca que um ovo. Tá se sentindo bem?"

Apenas assentindo com a cabeça, Alana focou em seguir em frente e acabou enterrando os pés numa poça de água lamacenta. O tênis branco tornou-se um desastre. A água invadiu o calçado, encharcando suas meias e formando uma poça embaixo das pontas dos dedos.

"Mas que merda!"

"Calma. Dá pra limpar, cê quer voltar?"

A sugestão inconveniente acentuou sua irritação, mas conteve os palavrões ou chamaria a atenção...

Tinha certeza de que o homem do cigarro as observava.

Arriscando uma olhadela, suas suspeitas se confirmaram. A ponta do cigarro piscava perto do chão. Subiu o olhar desde a mão poderosa que segurava o cigarro até os ombros daquele tronco robusto. Usava um terno azul marinho inconsistente com a situação. Subiu mais o olhar e encontrou dentes brancos e perfeitamente alinhados surgindo por trás da cortina de fumaça. O sorriso largo se impregnou em sua mente. A barba estava feita e seu queixo quadrado lhe dava uma aparência vigorosa, mas os olhos...

Olhos injetados de sangue, num tom de vermelho flamejante. Alana conhecia bem aquele tipo de olhar, carregado de desejo. A imagem trouxe-lhe memórias dolorosas e o ritmo de sua respiração se acelerou.

"Só vamos sair logo daqui," ela disse, fazendo o máximo para não correr em disparada.

Longa Noite em Santo ExpeditoLeia esta história GRATUITAMENTE!