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Annaleah não consegue desviar o seu olhar do meu. Não a condeno por isso, muito menos me sinto constrangida. Ela não é a primeira pessoa a tomar essa postura comigo, nem vai ser a última. Os meus olhos são das poucas coisas que não consigo encobrir.

– Estou a ser demasiado óbvia?

Tenho vontade de responder-lhe que sim, mas controlo-me. Em vez disso escolho dizer-lhe apenas que não.

– Por quanto tempo estive inconsciente?

– Dois dias inteiros. Pensei que fosses precisar de mais tempo, mas Kai quis acordar-te. Ele achou que estava na altura de nos explicares o que realmente aconteceu. – A sua voz está séria. O que de certo modo soa estranho visto que Annaleah é uma rapariga muito baixa, de cabelo loiro platinado que lhe dá pelos ombros e com um rosto também pequeno e redondo e os maiores olhos azuis que já vi em alguém.

– Acho que já sabes a resposta, considerando que sabes quem eu sou.

O seu rosto mantém-se imóvel, sem qualquer tipo de expressão. Penso no meu arrojo e em como, um dia, ainda será a minha ruína. Contudo, Annaleah parece gostar. Um largo sorriso estende-se nos seus lábios encarnados, seguido de uma gargalhada.

– Tens coragem, Imogen. Ninguém o pode negar.

Obrigo-me a sorrir. – Acho que tenho de vos agradecer.

Annaleah encolhe os ombros. – Qualquer inimigo dos kakoi é nosso amigo. Mas parece-me que consegues dar conta do recado.

Observo-a. Embora esteja a tentar descontrair-se, existe um certo nível de tensão a impedi-la. A fim de sobrevivermos no novo mundo, é necessário aprendermos a desconfiar, a duvidar de tudo e de todos. Em especial das pessoas que se parecem comigo. A rapariga defronte de mim, claramente pela cor cristalina dos seus olhos, nunca teve de passar pela perseguição que resume grande parte da minha.

– Não tens nenhuma pergunta a fazer-me? – Eu sei que ela está à espera deste momento.

– Queres contar-me alguma coisa?

– Não.

– Bem, então imagino que queiras descansar mais um pouco.

Assinto, pois realmente preciso. No entanto antes preciso de matar o bicho da curiosidade que começa a consumir-me.

– Como conheceste o Kai?

Annaleah arregala os olhos numa reacção involuntária. Embora eu ache que ela já devia estar à espera que eu fosse perguntar algo do género.

– O Kai é como o meu irmão mais velho. – Dá um pequeno suspiro. – Eles encontraram-me há uns anos perdido, acolheram-me e desde então que estou aqui.

Eles? – Há mais alguém? Isso explica o quarto arranjado.

Ela apercebe-se do que disse e fecha os olhos. Está claro que não é algo que eu deva saber, mas descuidou-se. Agora não há volta a dar. Aguardo a resposta.

– Aidan, o irmão mais novo de Kai.

Num gesto involuntário, olho em nosso redor.

– Onde está o Aidan? – Sei que estou a puxar demasiado, mas a minha curiosidade não me permite a dar três passos para trás. Preciso de saber o máximo, para melhor tirar proveito da informação. Já há muito que aprendi que só assim alguém como eu tem possibilidades de sobreviver. – Ele vive aqui?

– Não – Annaleah responde.

– Onde está, então?

– Foi levado há algum tempo. – Há dor na sua voz, isso é tão transparente quanto água.

Não preciso de telepatia para saber ao que ela se refere. Faz sentido se ele for remotamente parecido com o irmão. De certa forma explica até porque se encontravam àquela hora da noite no centro da Cidadela. Se isso for realmente verdade, então eles são loucos e eu tenho de me afastar deles o mais rápido possível.

Mentalmente agradeço aquando chegamos ao quarto. Acredito que também ela precise de manter uma distância de mim afim de conseguir actualizar Kai. Claramente, foi ela a fazer-me o interrogatório na esperança de conseguir saber mais. Mas não preciso de avançar muito, basta deixá-los ficar com a minha fama – a rapariga kakoi que conseguiu fugir do controlo do Presidente.

Sozinha, sento-me na cama ao ouvir o baque da porta a fechar-se como um convite aos meus pensamentos. A Cidadela está mais perigosa do que nunca agora que os kakois estão conscientes da minha presença. Obviamente, o Presidente deve saber dos meus movimentos e não me parece que ele se tenha esquecido de quem eu sou. Afinal eu sou a maior ameaça ao seu Estado. Assim resta-me apenas seguir com o meu último recurso, aquele que eu sinto os meus ossos a gelar só de pensar nele – procurar o líder dos resistentes.

Penso imediatamente no meu pai e no que ele diria perante esta situação. A resistência fez parte durante grande parte da sua vida, lutou por eles em muitas batalhas contra os kakois. Só com a ajuda deles, conseguiu ajudar-me a escapar do Quartel, da escravidão que seria o resto da minha vida.

Todas as histórias até agora que ouvi descrevem-no como extremista, com o único objectivo e expulsar o Presidente do poder, não se preocupando com os meios. Exactamente por isso, nunca dei mais do que dois segundos do meu tempo sobre o assunto. Ele vai saber de imediato quem eu vou, e sabe-se lá o que irá fazer. Porém, neste exacto momento, não me parece que haja outra solução.

O meu peito insufla com a pressão. Consigo sentir o oxigénio a desaparecer dos meus pulmões, as minhas mãos tremem. Do nada, sinto-me completamente perdida. Tento imaginar o seu rosto, tentar focar-me na imagem dele para não perder a cabeça. É por ele que eu luto todos os dias pela minha sobrevivência. Ele deu a sua vida para que eu possa viver.

A cada dia que passa torna-se mais difícil recordar-me de todos os pormenores que faziam do pai a pessoa que ele efectivamente era. O medo de a imagem de cair no esquecimento era algo que me assustava constantemente. Eu não posso esquecê-lo. Não a única pessoa que me amou incondicionalmente.

Uma voz no fundo do meu inconsciente grita-me. Não, o meu pai não foi a única pessoa que me amou. Contudo eu não posso sequer permitir-me a pensar nele. Ele amou-me e morreu também por causa disso. Este ciclo tem de terminar.

Deixo-me cair de costas na cama.

Tenho de tomar uma decisão.

E tenho de a tomar rápido.

Filhos das RuínasWhere stories live. Discover now