Prólogo

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Uma brisa fazia estremecer o meu pequeno corpo enquanto permanecia sentada na escadaria de pedra da minha escola. Abracei-me de modo a me proteger do frio que sentia.

Todos os meus colegas já tinham ido embora para casa e eu fiquei à espera que Louise me viesse buscar, como sempre fazia. Contudo, desta vez estava a demorar mais tempo que o normal.

Avistei a Mrs.Edith e acenei-lhe com a minha pequena mão com o intuito de me despedir e desejar-lhe um resto de bom dia. Ela aproximou-se de mim e acarinhou-me a nuca. Desceu para ficar ao meu nível e sorriu carinhosamente – O que estás ainda aqui a fazer princesa? As aulas já terminaram há um bom tempo.

- Eu sei...- suspirei ao responder – A minha irmã ainda não apareceu para me vir buscar – Pousei a minha cabeça em cima das minhas mãos com um ar aborrecido. Mrs. Edith fez uma expressão preocupada e logo se sentou ao meu lado.

- Sendo assim fico aqui contigo à espera.

- Não é necessário Mrs. Edith, de certeza que a minha irmã não deve demorar – sorri-lhe com sinceridade para que não se preocupa-se comigo.

Ela sorriu e abanou a cabeça pegando na minha mão e fez-lhe um pequeno carinho.

Estava um tempo realmente desagradável, não muito diferente dos outros dias mas ao menos não estava a chover. Mrs. Edith estremeceu de frio e senti necessidade de lhe dizer algo para não se preocupar comigo para que pudesse ir embora.

– A sério que não é preciso ficar aqui comigo. Não se preocupe, ficarei bem – Mrs.Edith olhou-me por uns segundos e fez-me má cara. Olhei para a caixa de areia onde tinha uma pá e um balde esquecidos – Vou brincar para ali. Pode ir Mrs.Edith – levantei-me e sorri. Fui em direção à caixa de areia e sentei-me brincando com os objetos esquecidos.

Vi Mrs.Edith a levantar-se e a seguir caminho numa direção contrária a onde eu me encontrava. Suspirei de alívio. Apesar de gostar muito de Mrs.Edith gostava mais de estar sozinha e não queria as perguntas constantes dela.

Fiquei pela caixa de areia a brincar um pouco distraidamente. No entanto, o frio apertava cada vez mais e a falta de Louise já me estava a incomodar. Senti uma vontade súbita de chorar, não era normal esta demora. Encolhi-me apertando os meus joelhos ao peito e escondi a cara tentando conter a minha preocupação e as lágrimas que ameaçavam escorrer. Após uns longos minutos deixei de sentir aquele frio desconfortável e voltei o meu rosto para cima. Já não me encontrava numa caixa de areia mas sim num campo extenso com diversas cores entre os verdes, rosas, amarelos e azuis. Senti-me mais leve e os meus olhos já não se encontravam molhados. Levantei-me e senti uma vontade de correr livremente por aquele campo e ri perante os diversos sons alegres que aquele lugar me transmitia. Avistei uma grande árvore no cimo de um monte cheio de flores ao seu redor. Era uma laranjeira maior que o normal no meio deste extenso campo, apenas uma que parecia perdida.

Comecei a caminhar em sua direção com intenção de apanhar uma laranja para comer, no entanto,os meus pés pararam e o meu coração acelerou quando um rapaz saiu de trás daquela grande árvore. Era muito maior do que eu e sorria encantadoramente para mim. Aquele rapaz era fora do normal, possuía uns caracóis maravilhosos castanhos e uns grandes olhos que cintilavam. As suas asas brancas como a neve saiam das suas costas e eram enormes. Asas. Aquele rapaz tinha asas e parecia exatamente como um anjo.

Começou a caminhar na minha direção e eu não tive reação, mas também, por alguma razão, não me dava receio estar perto daquele rapaz. Ele agachou-se de forma a estar da minha altura e sorriu novamente transmitindo-me tranquilidade. Acariciou-me o rosto e eu sorri agradecendo aquele carinho.

- Rose? – ouvi a voz da Louise e olhei para trás de mim de onde vinha o som. Olhei ao meu redor e já me encontrava de novo na caixa de areia. Será que adormeci e não dei conta? Mas foi tudo tão real... O que poderia ter simbolizado?

Corri na sua direção e abracei-a forte. Ela não parecia estar nada bem e os seus olhos estavam intensamente vermelhos. Parecia que esteve a chorar...

- O que se passa mana? – olhei-a preocupada e ela abraçoou-me ainda mais forte. Ouvi um soluço de choro sendo solto pela sua boca e estremeci - A mamã? Aconteceu alguma coisa?

Ela levantou-se e deu-me a mão caminhando para a saída da minha escola – Vamos ter que ir embora... Embora de Liverpool – olhei-a sem entender o porquê mas também não perguntei a razão. Alguma coisa me dizia que tinha a ver com o que acontecia regularmente lá em casa.

- E vamos para onde? – perguntei ao não conseguir imaginar para onde poderíamos ir.

- Para Portugal... A mãe tem lá família que nos vai dar casa.

- E o papá? – esta questão saiu a medo. Sabia perfeitamente que o papá batia na mamã e na Louise, contudo, elas nunca se pronunciaram acerca deste assunto à minha frente, sempre me tentaram proteger.

- O pai vai ficar por cá Rose e muito provavelmente vai ser preso – ela suspirou e eu não fiz mais nenhuma questão. Seguimos o caminho até casa em silêncio. A nossa casa não ficava muito longe da escola, por isso podíamos ir perfeitamente a pé. Louise parecia bastante inquietante e nervosa, e eu queria dizer algo para lhe fazer sentir melhor, tal como ela me dizia todas as noites em que o meu papá chegava bêbado a casa. Apenas me lembrei do meu anjo e decidi que hoje queria que ele estivesse com a minha irmã.

- Não te preocupes mana, o meu anjo da guarda vai nos proteger – Ela sorriu-me e assentiu.

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