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Possivelmente, eu vou morrer. Não é tanto uma certeza, mas mais uma possibilidade. Embora, esse pensamento possa amedrontar muitos se se encontrassem no meu lugar, eu estou completamente extasiada. Por base, sempre agi conforme a lógica. Sempre fui boa a distinguir os sentimentos dos pensamentos, numa mais valia para a minha vida. Como se costuma dizer, preto no branco. Embora eu própria não me encaixe nesse registo. Por essa mesma razão, sinto cada vez esse dia a chegar mais perto. Eventualmente, tenho de deixar de fugir e confrontar-me com o meu destino. Porém, até lá, tento escapar da melhor forma.

A razão pela qual eu cresci desta forma é uma consequência directa do mundo que já não se assemelha a nada do que outrora foi. Quando eles ascenderam ao governo e lugares de poderes, ninguém imaginou que um dia a humanidade fosse ser empurrada até à beira do precipício, que seríamos obrigados a retornar ao estado mais primitivo. Por esse motivo, a desfasada cidade à minha frente é bonita. Mesmo de noite, é possível ver tudo em detalhe. As Ruínas exibem uma beleza que encaixaria na perfeição num postal, se houvesse forma de alterar a parte paisagisticamente mórbida. É a imagem perfeita de uma realidade que é agora a nova condição humana.

Com os pés à beira do edifício, num esforço para me manter em equilíbrio, sou assolada pela adrenalina a percorrer-me as veias. Um frenesim recebido com agrado e entusiasmo.

De certo modo, desde sempre houve algo a chamar-me para este lugar. Não há muitas pessoas que conheçam os caminhos que me trazem até aqui, mas também não há muitos que se atrevam a afastar-se das barreiras seguras da Cidadela. Resto somente eu. Aqui, eu sou capaz de sentir uma empatia com tudo o que está destruído e que me rodeia. Suponho que assim seja, pois de certo modo revejo-me sob esse contexto.

Quando o início do fim chegou, ninguém estava preparado. Ninguém, em geral, acreditava no Apocalipse até este estar de facto a acontecer. Talvez esteja a exagerar um pouco, mas o que aconteceu assemelhou-se muito a isso. Após a Grande Guerra, não ficaram mais do que restos do que outrora formou as nações. Sobraram apenas pessoas quebradas, outras doentes, outras
loucas; lugares sujos e sem vida; uma esperança morta. Houve claro pessoas que se revoltaram, tentaram trazer novamente o poder para as mãos do povo para que nós pudéssemos escolher o melhor destino para nós mas em vão. Na última vaga morreram milhares. Desde então o povo conformou-se a viver no que já não se podia classificar mais como uma civilização.

Os ruidosos passos despertam-me dos seus pensamentos. Como uma estalada da realidade, recordo-me do que realmente estou ali a fazer. Eles estão perto. Inspiro fundo, desço do parapeito e ponho-me em posição.

Como já esperava, entram disparados no terraço, o seu peito a subir e a descer. Sinceramente nunca entendi porque insistem em fazer isso. Os kakois – como chamamos na gíria das ruas – não sentem fadiga, fome, sede ou sono. O seu corpo visualmente é igual ao de um homem normal, porém não precisam de manter uma sustentabilidade tão complexa.

Observo ambos. O mais alto é loiro e tem algo nele que realmente me assusta. O seu olhar é como o de um predador aquando sabe que tem a presa encurralada. Já o outro, muito mais baixo e moreno, tem um ar juvenil. À primeira vista, parecem homens comuns. Contudo quando observamos melhor denotamos pequenas coisas que mostram o que eles realmente são – homens manipulados num laboratório. Nenhuma pessoa seria capaz de subir cinco andares por escadas sem deitar uma única gota de suor. Para além disso, ambos têm um brilho especial, quase sobrenatural. Aparência perfeita, corpos em forma e prontos a lutar, e um conhecimento óbvio do mesmo na sua postura. Porém o mais identificável são os seus olhos. Todos os kakoi têm olhos pretos. Não castanhos muito escuros, mas pretos, onde é impossível distinguir a íris da pupila. Sou capaz de os reconhecer em qualquer lado pois os meus são exactamente iguais.

Filhos das RuínasWhere stories live. Discover now