Capítulo Quarenta e Oito

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Elisa não era muito sentimental. Mas ver os seus grãos de ervilha na telinha um tanto granulada do aparelho de ecografia tocou seu coração. Trazendo-a de volta à realidade, ela ouviu a mesma pergunta pela terceira vez:

– Gêmeos?

– Sim, Marco – Natália respondeu pacientemente. – Olha, aqui está um dos coraçõezinhos e, aqui, o outro. Os corpinhos dos dois estão um pouco embolados. Vai levar umas semanas ainda para conseguirmos uma imagem bem clara de ambos, e terá que ser em um aparelho de ecografia melhor do que este que tenho no consultório. Quando chegar a data certa, emitirei a requisição e vocês poderão ter uma foto tridimensional do rostinho deles.

Elisa piscou rapidamente, sem saber se o seu maior choque era devido à notícia de que carregava gêmeos, ou porque poderia ter uma imagem deles ainda dentro dela, ou pelo fato de seus olhos continuarem a arder.

Estava mais inclinada a pensar que eram as lágrimas, mas como essas ordinárias ousavam dar as caras num momento como este? Isso não era aceitável. Além disso, a situação não deixava de ser irritante, pois a única vez em que se lembrava de chorar depois de adulta foi quando ficou sabendo do acidente de esqui do grande piloto de Fórmula 1 Michael Schumacher.

Não, não, ela não estava chorando. Era a temperatura da sala que a fazia piscar desse jeito, ou talvez o perfume do desinfetante que usaram para limpar os pisos. O fato de ver duas lagartinhas numa tela não devia deixar alguém emocionado, devia? Talvez a culpa das lágrimas fosse dos malditos hormônios dos quais as mulheres tanto reclamavam.

Piscou mais algumas vezes e se virou para as duas pessoas que estavam ao seu lado, conversando.

– Mais uma vez, parabéns a ambos, papais. Darei alguns folhetos para você, Elisa, e requisitarei outro exame de sangue, agora para ver como está a sua saúde. Já vou receitar o ácido fólico, porque outros suplementos dependem de como está o seu corpo – dizia Natália com um sorriso nos lábios.

E Marco, encarando a tela fixamente, pelo visto havia sido acometido pela mesma ardência nos olhos devido à temperatura.

– Gêmeos... Seremos pais de gêmeos... – balbuciava sem parar.

Jesus, o coitado parecia catatônico. E Elisa não entendia o porquê, afinal, era ela quem carregaria duas criaturas dentro de si por nove meses.

Virando-se novamente para o monitor, voltou a sentir aquela suavidade no coração ao ver a foto aquelas bolinhas. Por um lado, talvez desse para entender Marco, só um pouquinho.

Em seguida, obrigando-se a sair daquele estado de mudez absoluta, ela limpou a garganta.

– E está tudo bem com eles? – perguntou, numa voz aparentemente firme.

– Vamos prosseguir com o exame agora, Elisa, e já veremos isso. Embora já possa dizer que sim, pelo que percebo nessa análise inicial. Eles estão com a aparência de terem umas oito semanas, como você tinha dito. Vou ter que avaliar melhor os exames depois, mas por enquanto, tudo ok.

Natália voltou a pegar o transdutor e, durante todo o resto do exame, Elisa sentiu a mão de Marco entrelaçada na sua. Manteve-se quieto, assistindo a tudo, e ela viu vários sentimentos passarem pelo rosto dele enquanto um sorriso permanecia em seus lábios.

Felicidade, incredulidade, e mais felicidade ainda.

Bom, não exatamente "vários", então, mas em excesso.

O homem parecia explodir em arco-íris, o que não era nem um pouco macho para alguém trajando terno e gravata.

Ela, por outro lado, não sabia muito bem como se sentia. Na verdade, havia muita coisa esquisita em seu interior, muita...

Meu Adorável AdvogadoWhere stories live. Discover now