Capítulo 40 - Disfarces

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Acredito que nenhuma palavra seja suficiente para expressar os últimos dias naquele castelo. O que Mahlars fizera comigo não dava para ser descrito em palavras e eu pedia aos deuses que apagasse minhas memórias para que também não pudesse ser lembrado. Ninguém merecia algo assim. Apesar de tudo eu não me arrependia de ter feito o que fiz, isso ao menos me garantiu uma pista que parecia ser importante. Agora eu só precisava me manter viva e esse era o grande desafio.

Depois do que fizera, o bruxo me trocara novamente de cela, dessa vez para um lugar ainda pior, menor e mais deplorável. O número de guardas também havia triplicado e eu ainda agradecia por ele não ter descoberto o desenho – agora totalmente rabiscado – entre minhas vestes. Isso era um grande problema, pois eu sabia como tudo prosseguiria se ele visse essa nova pista. O uso de correntes se tornou rotineiro para conter meus movimentos, a comida tinha sido ainda mais reduzida e eu só era autorizada a beber água porque Mahlars queria que eu vivesse por mais um tempo. Para seu entretenimento como ele adorava dizer. A única coisa que me deixara feliz foi saber que Ramon não tivera problemas pelo que houve.

Ele me ajudara com os ferimentos depois da surra que levei de Mahlars por ter fugido, contou que precisou se cortar para dizer ao bruxo que tentou lutar comigo e que tudo havia acabado bem para ele, mas infelizmente as coisas estavam sendo complicadas para mim.

- Você precisa aceitar essa bendita proposta. – pediu ajudando-me pela milésima vez enquanto passava remédio em um dos meus olhos inchados. Novamente Mahlars tinha feito uma demonstração do quanto podia ser convincente. – Hailey, isso não vai acabar. É admirável a sua coragem, mas precisa pôr um fim nessa tortura.

- Você me chamou pelo nome. – sorri ainda tonta com os socos que levara na cabeça. – Já faz tanto tempo que não ouço isso.

Vi Ramon engolir em seco. Ele apertou o pano que limpava meus ferimentos entre os dedos com força.

- Hailey, por favor, aceite o que ele propôs. É sua única saída desse lugar. – implorou – Eu não quero ver você morrer. – confessou.

Minhas estruturas estavam frágeis demais, por isso meus olhos foram inundados por um mar sem fim de lágrimas antes que eu pudesse contê-las. Toda a minha promessa de manter-me firme e ser forte estava escorrendo por meu rosto, mas eu não me importei e deixei que tudo fluísse para fora, pois era Ramon quem estava ali. O único que eu confiava naquele lugar, o único que eu sabia que valia a pena.

- Sem qualquer relação com os prisioneiros, Ramon. Lembre-se disso e ficará tudo bem. – brinquei, mesmo havendo um pouco de verdade em minhas palavras.

Ele bufou.

- Acho que é tarde demais para me dizer isso.

Sorri, mas me senti péssima ao ver pela primeira vez seus olhos enchendo-se de lágrimas também.

- Eu tenho uma irmãzinha que deve ter a sua idade. – disse - Não consigo mais dormir, a todo o momento penso nela aqui em seu lugar e me sinto péssimo.

- Você é um bom homem, Ramon. Não deveria estar nesse covil, eu prometo que a sua liberdade virá. – prometi - Se não por minhas mãos, por alguém que ainda vai acabar com esse monstro que você é obrigado a chamar de mestre.

As lágrimas de Ramon desabaram e ele não fez questão de limpá-las. O gesto me fez entender que nossa confiança era recíproca, ele não faria isso na frente de qualquer outra pessoa. Aquele homem estava sofrendo, com certeza ainda mais do que eu e por muito mais tempo. Eu tinha um novo objetivo agora e sim, ele envolvia Ramon. Suas mãos seguraram meu rosto que insistia em desabar pela falta de força e seus olhos encaram bem os meus.

O Mistério de Allíshya - Perdida | Livro 03Leia esta história GRATUITAMENTE!