Capítulo Quarenta e Sete

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Elisa suspirou de alívio quando se acomodou na cadeira estofada. Olhou em direção à doutora Natália, que se encontrava do outro lado da mesa de madeira, digitando alguma coisa indescritível no computador do consultório.

O silêncio não a incomodava. Ele era bem-vindo depois dos dias de loucura que andava vivendo. Seu smartphone não parava de tocar, desconhecidos apareciam do nada para parabenizá-la pela novidade e, para tornar tudo ainda mais "agradável", quatro criaturas sem noção resolveram deixá-la maluca.

Dentre elas estava sua mãe, a principal instigadora de sua insanidade. Ela andava alvoroçada, planejando tudo para a chegada do neto ou neta. Havia entrado em contado com a própria gineco, informando-se sobre o pré-natal, e até conseguiu o nome de um aplicativo gratuito para Elisa instalar no celular, alegando que assim seria mais fácil a troca de informações entre médicos e gestantes. Dona Nonô não conhecia Natália e, se não a conhecia, como poderia confiar?

Ah, e claro que ela também não queria mais que Elisa subisse até o andar de Fernando. Uma grávida deveria evitar escadas, então ele que visitasse a irmã.

Tiveram uma reunião tensa. Dona Nonô chamou suas crias e distribuiu as tarefas. A principal delas era que Fernando se encarregaria, a partir daquele dia, das refeições da gestante da família e teria de fazer exatamente o que constava na extensa lista que a mãe havia feito, com todo o cuidado.

Naquelas horas, Elisa se perguntava se Dona Nonô se lembrava que um dia também foi gestante, por duas vezes, aliás, e que provavelmente subiu muita escada, além de ter um cardápio menos saudável. Ela se lembrava muito bem de uma semana em que ambas – e Fernando, ainda dentro da barriga – viveram dos salgadinhos fritos de sua mãe porque estavam sem dinheiro para comprar outras coisas mais saudáveis.

Elisa andava tão ruim por causa daquela história de estar com um serzinho intruso dentro de seu corpo que não sabia mais se brigava com sua mãe ou a ignorava. A gripe e os enjoos, somados àquela "notícia abaladora de vidas", haviam?? acabado com seu pique.

Tudo bem que as duas tinham sangue quente, e era comum baterem boca, mas e a energia? Elisa não aguentava mais.

Ela já estava prestes a lançar a toalha quando Dona Nonô entrou num assunto delicado naquela fatídica reunião: alegou que por estar grávida, sua filha não poderia trabalhar na oficina devido aos produtos químicos a que estava exposta. E que por ser a patroa, não teria grande dificuldade nisso.

E, como se isso não bastasse, ordenou que Fernando confiscasse as chaves da sua moto.

Isso lhe renovou a energia e ela explodiu. Mandou a mãe ir cuidar da própria vida e deixá-la em paz. As duas se enfrentaram, e Fernando ficou no meio, entre obedecer a mãe ou se impor. Na verdade, Elisa sabia que ele concordava com Dona Nonô, mas não queria exaltar ainda mais uma mulher grávida.

Foi por isso que ele sobreviveu.

Até porque foi inteligente o bastante para não se aproximar da chave da moto.

Enquanto relembrava sua semana de cão, Elisa levou a mão no pescoço e mexeu no cordão em que a dita cuja estava pendurada. Todo esse auê com Dona Nonô e Fernando lhe deixaram ressabiada, então quando chegou no escritório esta manhã e Marco fez aquela maldita expressão de reprovação ao notar seu capacete, ela viu vermelho.

Ele já havia implicado com a sua comida, ousando pensar que Elisa tentara se entupir de canela porque era abortiva. Como não imaginou que o Sr. Preocupação também enlouqueceria com a ideia dela andando de moto pela cidade?

O que nenhum desses patetas intrometidos percebiam era que ela era adulta e sabia cuidar de si mesma. Quando ficava doente, não ia ao médico e se medicava direitinho, por acaso? Agora que carregava um grão de ervilha, era óbvio que lidaria com aquilo.

Meu Adorável AdvogadoWhere stories live. Discover now