Prólogo

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Novembro de 2016

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Novembro de 2016

Naquela noite, meu coração estava apertado e parecia ter algo preso em minha garganta. Era terça-feira e às 19:30 começava um culto em nossa igreja. Mamãe já estava arrumada e terminava o jantar, enquanto perguntava de cinco em cinco minutos se meu irmão e eu já tínhamos terminado de nos arrumar. Eu estava sentada na sala, terminando de calçar o meu par de All Star quando papai entrou.

— Oi, pai.

— Oi. Vai sair? — ele parou próximo a porta do corredor, pronto para ir ao banheiro. Foi quando reparei em sua aparência de verdade. Os cabelos negros que escapuliam do boné estavam úmidos e ele não estava sujo de graxa como geralmente chegava em casa todos os dias...

— Hoje é dia de igreja, ué.

Ele assentiu sem dizer mais nada e foi para o banheiro.

— Tô pronta, mãe! — gritei.

— Também tô. — a voz do meu irmão ecoou pelo corredor, vindo do seu quarto.

Da sala pude ouvir mamãe terminando de organizar as vasilhas no fogão e após apagar a luz da cozinha, ela caminhou até a sala.

— Então, vamos! — ela cruzou a sala, indo em direção a mesinha que ficava próxima a porta, onde costumávamos deixar as chaves do portão e do carro. Mas a chave não estava lá.

Mamãe suspirou.

— Laura, você pode pedir a chave ao seu pai, por favor?

Isso ia dar merda. Com certeza.

— Tá.

Caminhei até a porta do banheiro.

— Pai? Onde está a chave do carro?

— Pra quê? — sua voz não era nem um pouco simpática e eu podia para ouvir o barulho do teclado do seu celular enquanto ele digitava.

— Pra gente ir na igreja...

— Vou precisar do carro agora a noite. Se quiser ir na igreja, tem que ir a pé. — ele respondeu secamente.

Naquele momento eu jurei que estava sonhando. Sério, não podia ser verdade! Nós tínhamos esperado esse tempo todo por ele. E ele estava muito atrasado. A oficina sempre fecha às 17:00, e ele só chegou em casa às 19:00! Ele sabe que nós sempre vamos a igreja nas terças-feiras, mas há algumas semanas ele tem prazer de chegar atrasado justamente nesse dia.

Enquanto a mamãe corre para chegar do trabalho e preparar o jantar, ele se atrasa de propósito. E sinceramente, eu não entendo a sua implicância com as terças-feiras. Meu irmão e eu deixamos de convidá-lo para ir com a gente pra igreja há muito tempo, de tanto insistir finalmente entendemos que os convites que fazíamos a ele só pioravam as coisas. Tudo o que ele tinha que fazer era compartilhar o carro com a gente e pronto! Mas até isso parecia difícil pra ele agora.

— Pai... Já passou das sete. Nós vamos chegar atrasados. — expliquei, embora eu estivesse tremendo de raiva, minha voz soou calma.

Em silêncio, ele abriu a porta apenas o suficiente para jogar a chave. A chave caiu aos meus pés, enquanto a minha incredulidade crescia. Olhei para a chave, ao mesmo tempo em que meus olhos começavam a arder com as lágrimas que se formavam.

Por que ele tinha que ser assim?

Eu ainda olhava para a chave, quando senti a mão da mamãe na minha. Gentilmente ela me puxou corredor a fora, deixando a chave lá. Pegou a Bíblia que estava no braço do sofá e saímos de casa.

Nós caminhamos em direção a igreja, que ficava em um bairro vizinho ao nosso. Da nossa casa até lá eram mais ou menos uns 25 minutos de caminhada.

Durante toda a caminhada, mamãe segurou a minha mão. Eu sei que ela estava tão chateada com a reação do meu pai quanto eu. Eu podia ver em seus olhos o quanto ela estava triste e desapontada. Sei também que ela não teria perdido tempo em discutir com ele e me defender, mas há alguns meses, ela vinha descobrindo que não importava o quanto eles discutissem, tudo o que ela dizia ao meu pai entrava em um ouvido e saía pelo outro. E tudo o que ele guardava no coração eram as palavras mais duras. Ele não meditava sobre nenhuma crítica construtiva, independente de quem a desse. As discussões serviam mais para machucar, e não escolhia quem machucaria, cada discussão parecia como um furacão, gerando caos na casa inteira.

— Eu sinto muito, querida. — mamãe rompeu o silêncio quando estávamos chegando à igreja. — Prometo que tudo isso vai passar. — ela apertou a minha mão, e nós entramos na igreja.

Sentada na igreja, eu ainda não conseguia parar de pensar no meu pai. O cabelo molhado. A falta de sujeira. As palavras duras. As atitudes... Eu sabia que meu pai vinha aprontando há muito tempo, só não conseguia saber por que. Por que a nossa família não era suficiente? Por que ele não amava a mamãe? Por que ele não conseguia respeitar nem o Marcos e a mim? Por que? Por que, Deus?

Fechei os olhos e tentei lembrar de algum tempo em que nossa família tinha sido inteira e feliz, mas não consegui me lembrar. Sabia que mamãe só permanecia naquele casamento por duas razões: meu irmão e eu, e pela fé que ela depositava em Deus.

Em várias ocasiões Deus dissera a ela, de inúmeras formas diferentes, que ele a amava e que estava cuidando da família dela. Deus sempre a lembrava que não havia impossíveis para ele e que nossa família mudaria. Era por isso que ela continuava ali, insistindo em uma relação que para muitos não tinha mais solução. Às vezes, eu não conseguia compreender a fé da minha mãe, mas eu confiava nela e tentava ter pelo menos um pouco da fé dela.

Naquela noite, eu não consegui prestar muito atenção no culto, mas quando o pastor estava encerrando a pregação, lembro que ele fez um clamor de oração e mamãe insistiu para que meu irmão e eu fossemos com ela. Eu só queria que aquela dor no meu peito passasse, e que aquela pressão na minha garganta sumisse. Foi só isso que pedi a Deus, mas ele me respondeu com muito mais palavras do que eu esperava.

Enquanto o pastor orava, alguém veio até mim, segurou a minha mãe e disse:

— Sou eu filha, o seu Pai. Quero que você saiba que eu vejo os sonhos do seu coração e que vou realizar o mais deles! Eu sei que você anseia pelo dia, em que aquele que você tanto ama, ande lado a lado com você, que seja fiel e não te abandone. Escrevo isso no seu coração hoje para que você não se esqueça: eu farei com que ele ande ao seu lado! Mas até lá lembre-se: eu sou o seu melhor amigo. Confie mais em mim!

***

Alguns meses depois, meus pais se separaram. Por mais que eu tentasse me lembrar da promessa do Senhor, minha realidade insistia em me mostrar que os meus sonhos estavam muito longe de tornar-se realidade e que fosse quem fosse esse tal amado que andaria ao meu lado, ele estava muito longe e nem um pouco a fim de uma caminhada comigo. 

Quando o amor me encontrouLeia esta história GRATUITAMENTE!