Capítulo 36

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Obviamente, a ideia de me colocar em evidência, sem antes me avisar para eu poder me preparar, não deu certo. Gaguejei, engoli metade das informações e rodeei em círculos até topar com algum fato redundante.

Trocando em miúdos, foi horrível, e eu me senti péssima a noite inteira. O sheik não olhou na minha cara, nem me apresentou a ninguém, o resto da noite. Fiquei de canto, olhando todo mundo conversar, morrendo de vontade de chorar e, quando finalmente pude ir para casa, o ouvi reclamando de mim para as Botelho em um tom irritado e altíssimo.

Xingou muito em árabe, não entendi uma só palavra, mas dava para perceber que era xingamento só pelo como ele falava.

Quando cheguei no quarto, estava tão envergonhada, que nem consegui dar boa noite para a Anne que me esperava com uma xícara muito linda com um chá muito cheiroso.

Me enfiei no banheiro com vontade de voltar para casa, e peguei o celular só esperando a bronca das Botelho. Elas me enviaram todos os estudos de campo, de negócios, o Lipe me explicou suas ideias, a vontades das clientes dele, o imprescindível e todos os argumentos que eu poderia usar caso alguém me perguntasse.

Frisa essa parte: Caso alguém me perguntasse.

Ninguém me disse nada sobre discurso e eu ouvi sobre o projeto como quem quer fazer parte dele, mas não como quem vai ter que explicar a um leigo.

Em partes, a culpa era mesmo minha porque eu devia ter aprendido mais sobre o projeto que eu vou coordenar, mas em minha defesa, digo que uma coisa é aprender, outra coisa e fazer discurso e convencer uma audiência sobre ele.

Sabendo que já era quase de manhã no Brasil por ser de madrugada aqui, olhei o celular só para sentir saudade. Nem Gabriel, nem Rafael, estariam online, então mandei uma mensagem genérica contando da festa e abri a ducha.

Rafael me ligou antes que eu tivesse terminado de escovar os dentes e eu queria tanto atendê-lo e contar o quão lixo me senti, que cuspi a pasta na pia e nem lavei a boca.

— Tudo bem, Manu?

Ouvir a voz dele me fez abrir o berreiro na primeira sílaba. Desapontei sem nem saber que desapontaria e morri de vergonha de não atender à demanda que eu sabia que seria imensamente alta, mas no tocante ao trabalho, não no tocante relações humanas.

— Quer ensaiar um discurso? – Ele sugeriu.

— Pra quê? O vexame já foi!

— Mas você disse que seriam três compromissos diferentes com festas. Pode ser que você tenha que discursar de novo. Não quer treinar comigo, se apresentar para o Gabi, e ver o que ele acha?

Quis. Tanto quis, como fizemos, mas não com o Rafa. Desliguei um pouco mais calma, me dei o direito de dormir por algumas horas, e acordei sozinha na casa, Anne disse que o Sheik saiu rápido de casa e não perguntei se ele voltaria antes da festa parte porque eu não queria saber.

Esperei que as Botelho me ligassem, ou que mandassem o Lipe me ligar, mas ninguém me ligou. Ninguém, para o bem e para o mal, quis falar comigo durante o dia, então abri meu computador, as pastas com informações escritas "CONFIDENCIAL" em vermelho carimbado e estudei o melhor que pude até conseguir formar um discurso com começo, meio e fim, um tom positivo e com visões de progresso.

Era mais ou menos quatro da tarde quando senti que podia desenhar, vendada se precisasse, o projeto do meu irmão. Quantidade de baias, de estábulos, quantas pistas de corrida, números de empregados, números de cavaleiros, as previsões de lucro para o primeiro ano, a quantidade de cavalos e o impacto social do novo projeto.

Inclusive o número de imigrantes e o consumo estimado em milhões de insumos para cavalos.

Juro, eu sabia tudo e, orgulhosa, liguei para os meus dois e li para eles, treinando, o discurso que fiz pensando nas próximas festas.

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