Capítulo 33

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I

Ele caminhou pelo corredor silencioso observando as luzes serem apagadas e pressentindo os quadros dos antigos diretores fiscalizando-o com o olhar de dureza, fechou a expressão, mas não olhou para trás. Desde que o monastério fora fundado séculos antes, tivera em sua história apenas quinze líderes, sendo ele o décimo quinto da ordem, sob indicação de Palência. Estar ali era um troféu merecido, batalhara pela posição, fizera coisas impensáveis a fim de permanecer no cargo, e não seria agora que um fedelho que mal conhecia a história do lugar, iria colocá-lo sob dúvidas. Tudo o que fizera fora pelo bem da ordem, tudo o que fizera fora pelo bem da fé, ele não se arrependia, pois sabia que Deus tinha seus propósitos até mesmo nas fatalidades.

Descendo a escadaria o padre-diretor parou um minuto a observar o caminho que conduzia ao hall. Estava quieto, mal iluminado, e todos os internos e freis haviam se recolhido. Pelas janelas observava a neve caindo lentamente lá fora, e meneando a cabeça para afastar os pensamentos, prosseguiu seu trajeto parando frente ao local onde estivera o antigo vitral do arcanjo. Não podia fazer ruídos, a porta frente ao refeitório era o salão das orações, conhecido por capela dos anjos, alunos dormiam do outro lado. Fixou a escadaria à frente, e com um nó na garganta, respirou fundo ao observar o vulto parando logo ao topo dela.

— Diretor?

Ele umedeceu os lábios, e então caminhou até a silhueta, parando ao emergir da escuridão.

— Como estão as coisas Cotton? Algum imprevisto?

— Não. Desta vez sairá como planejado. Eu pessoalmente conferi os aposentos, e...

— O frei Isaque, onde está?

Alex Cotton respirou fundo, então olhou para o corredor e novamente para ele.

— Vigiando a porta. Não há como o garoto escapar.

— Perfeito, perfeito. — conferindo os arredores, o velhote remexeu os bolsos outra vez, e dele retirou um mediano envelope selado que o entregou — Aqui. Dê isso a ele. Diga para entregar a Samuel sem questionamentos. Deve ser o suficiente para fazê-lo cumprir sua tarefa sem soltar a língua e manter a discrição.

— Ele certamente vai compreender o recado padre — Alex Cotton respirou fundo, olhando novamente para o corredor sombreado — Apenas não se preocupe, sabemos muito bem que isto é o melhor a ser feito, e logo pela manhã verá o alívio que a decisão trouxera. Verá os últimos dias como um pesadelo que o sol levou. Garanto que as coisas voltarão ao normal.

O velhote engoliu em seco respirando fundo, então fitou seus olhos:

— Assim espero Alex Cotton. Para o bem de todos, assim espero.

Houve um momento de silêncio em que ficou parado no mesmo local a observá-lo dar de costas e sumir rumo a seu destino. O coração do homem estava apertado, mas precisava se controlar. Dando de costas, pôs-se a caminhar para o corredor da diretoria, mas antes de deixar o hall, parou um instante frente a um dos crucifixos que ornavam a parede, estranhando o fato de este também ter tombado de ponta cabeça. Mesmo certo de que tudo não passava de ridículas coincidências, o padre-diretor sempre sentia um desagradável arrepio quando acontecia algo assim, arrepio este que retornou quando se virando para a escuridão que encobria o hall, teve a estranha impressão de ver alguém parado lá embaixo, a observá-lo silenciosamente. Cerrou os olhos para enxergava melhor, porém nada havia a não ser a fraca claridade que escapava das cozinhas. Só podia ser o cansaço, por isso, umedecendo os lábios, ajeitou o hábito e prosseguiu seu caminho. Precisava rezar, precisava pedir a Deus para que nenhuma outra anormalidade acontecesse de agora em diante. Crer que pela manhã seus temores teriam passado, que Dan Mason, o rapaz tido como garoto problema, estaria a quilômetros dali, em qualquer cidade longe da colina.

O Exorcismo de Marlon Gayler [Romance Gay]Where stories live. Discover now