Capítulo 20 - Sombras do Passado

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I

Quando a noite caiu ele caminhou uma vez mais pelo corredor escuro. Não iria muito longe desta vez, seu objetivo era tomar as rédeas da situação, deixar de ser dependente como viera fazendo até o momento, e passar a agir mais por si só. Dan estava cansado, o outrora desafiador Dan Mason estava abatido. Ele fora trazido para este lugar há ao menos dois anos, e Von Saint-Michel com a truculência e arrogância de seus superiores havia enfim drenado todas as suas esperanças. Marlon não, ele só estava ali há um mês, ainda possuía o fogo desafiador na alma, ainda possuía ânimo para lutar contra as amarras que teimavam em querer amordaçá-lo. Dan e Jeremy podiam ficar tranquilos no que dependesse dele, Gayler surpreenderia a ambos, mostraria para o garoto de orelhas pontudas que sabia se virar sozinho, que podia sim lograr êxito onde ele falhou.

Tudo estava muito escuro e frio, as luzes já haviam sido apagadas, e a neve dançava lá fora. Ninguém estaria de pé àquele horário, ninguém perderia a oportunidade de aproveitar daquele clima agradável para dormir.

Tateando superfície por superfície, Marlon contava portinha por portinha após fazer a curva no corredor. Parou frente àquela onde os garotos estavam, e então, sem bater, pressionou a maçaneta e a fez deslizar. Seu coração se comprimiu ao ver a cena. Jeremy Mason permanecia do mesmo jeito, acomodado em seus cobertores, a cabeça um pouco elevada sobre os travesseiros, e Dan Mason, mantinha-se sentado na cadeira de balanço ao lado dele. Estava quieto, com o rosto um pouco inclinado para a janela, e a claridade que vinha do céu (certamente a lua crescente estava sobre as nuvens) banhava seu rosto cansado. Ele parecia dormir, vencido pelo esgotamento da noite anterior. Respirava calmamente, com um cobertor sobre si e a boca um pouquinho aberta.

Marlon fechou a porta e aproximou-se devagarzinho. Parou um instante frente ao garoto e ergueu a mão no ar com um desejo íntimo de acariciar-lhe a testa franzida pelo estresse, entretanto, parou antes de fazê-lo e pensou melhor. Seria correr muito risco de acordar Dan, não queria que despertasse, ele estava demasiadamente cansado. Precisava dormir. Isso sem falar que seria algo muito estranho de explicar.

Respirando fundo, Marlon tomou postura e afastou-se. Fazendo a curva ao redor do leito de Jeremy, recostou-se à cama do garoto. Ele esboçava feição cálida, parecendo ter sido medicado fazia pouco tempo. Respirava com dificuldade, reverberando alguns ruídos roucos que vinham dos pulmões, e por vezes murmurava algo baixinho. Foi quando Gayler tomou seus dedos frios, e os aqueceu entre as mãos.

Ei Jeremy?! — sussurrou baixinho próximo a seu ouvido, mantendo os olhos fixos em Dan Mason, que permanecia a dormir tranquilamente do outro lado da cama — Sou eu, Marlon Gayler — fez uma pausa para certificar-se de que o colega mais velho não havia despertado, e então prosseguiu — Só queria dizer que eu não desisti — ele sorriu com o coração apertado, massageando a mão fria do garoto — Só queria dizer que precisa ter forças, independente do que esteja sentindo ou do que o seu irmão diga.

O garoto murmurou algo incompreensível e Gayler se impressionou com a reação. Pensara que Jeremy Mason estava em sono profundo, porém, mesmo distante, o garoto parecia compreender os sussurros que lhe eram dirigidos.

Jeremy? — Gayler voltou a sussurrar tentando certificar-se de que ele o ouvira realmente — Você pode me compreender? — murmurou, mas apenas zunidos desconexos escapavam soprados de seus lábios lívidos. Então, acomodando a mão dele para aquecer abaixo dos cobertores, tornou a retrucar bem próximo à sua face atormentada — Preste atenção. Eu tenho um plano, mas, não posso dividir com seu irmão, infelizmente. Do contrário... — olhou rapidamente para o parceiro adormecido — Do contrário Dan tentaria me impedir, e isto seria muito ruim — respirou aliviado por poder compartilhar aquilo com alguém, ainda que este alguém nada pudesse responder. Não era todo dia que ele se decidia por roubar algo valioso de um professor, e se Alex Cotton descobrisse, certamente passaria a eternidade trancado no subsolo com um olho roxo a latejar. — Eu vou tirar a gente daqui, mas antes, preciso que você tente se recuperar, para que consiga andar quando for o momento — e acariciando sua testa, a exemplo de como vira Dan fazendo mais cedo, questionou — Posso contar com você?

O Exorcismo de Marlon Gayler [Romance Gay]Where stories live. Discover now