Capítulo 17 - A Vila

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I

O cheiro dele era bastante agradável. A proximidade de seu corpo transmitia segurança e calor.

Marlon estava rente a Dan Mason, os corpos recostados, as mãos envoltas à sua cintura sentindo a égua galopar rapidamente, os transportando pela estrada que cortava a densa floresta. Para proteger o rosto das fortes rajadas de vento que vinham do norte, Gayler precisara apoiar a cabeça quase que encostada ao garoto, e assim, podia ouvir as batidas frenéticas do seu coração. Já Mason parecia cavalgar despreocupado, batendo as rédeas, incentivando o animal a galopar cada vez mais veloz. Podia ver à frente apenas o rastro das árvores passando rapidamente, o vento zumbindo em seus ouvidos e a neblina se espalhando pela colina como a fumaça de um incêndio gelado.

Em dado momento resolveu quebrar o silêncio, porém muito resfriado, Marlon simplesmente não sabia o que falar. Não queria admitir, mas estava morrendo de medo de escorregar e se espatifar na estrada. Até tentou mover os lábios, mas diante da dificuldade, ouviu Dan a sussurrar: — Aguente só mais um pouco, estamos quase lá — e tornando a atiçar o animal, fizera uma curva logo à frente, mergulhando na densa neblina que já havia ocultado a encosta do morro.

Eles cavalgaram por aproximadamente vinte minutos após deixarem Von Saint-Michel, as faces estavam congeladas, e Dan, parecia já não sentir as mãos. Foi aí que para seu alívio os cascos da égua enfim bateram com força nas primeiras pedras de pavimento, e agora, apenas trotando, os primeiros sinais de civilização erguia-se além das folhagens. Postes que clareavam as ruas e prediozinhos construídos em tijolinhos de barro.

Puts — Mason tremulava quando fez a égua parar ainda às margens da mata. — Não me lembrava de como as noites podiam ser tão frias — levava as mãos ao rosto tentando aquecer as bochechas e percebeu Gayler descer com dificuldade.

— Bastante — o rapaz murmurou a seu exemplo — Espero que encontremos um lugar fechado para nos aquecer, o mais rápido possível — Olhava para todos os lados, a floresta ainda os rodeava, e à frente, a cidade parecia dormir.

— Um lugar para nos aquecer Gayler? — Mason zombou postando-se ao lado, passando-lhe a bolsa com os objetos que dele surrupiara — Você acha mesmo que a cidade receberia numa boa dois internos do Von Saint-Michel?

— E porque não? — Marlon retrucou observando a neblina dançar pelas avenidas, envolvendo os postes e as casas. As luzinhas de natal piscavam distante, nas árvores escondidas além das janelinhas fechadas.

— Não está mais do que na cara? — o garoto murmurou repreensivo — Para o vilarejo, não importa que história inventemos. Eles acreditam que o monastério não passa de um reformatório para rapazes delinquentes.

— Mas isto não é de um todo verdade — o garoto protestou olhando para ele.

— Verdade ou não, para os moradores tanto faz. Basta-lhes o que os freis os contam há anos.

Marlon bufou sentindo-se contrariado. Mas, o que o garoto dizia fazia todo sentido, do contrário, fugir do Von Saint-Michel não seria uma tarefa tão difícil assim. Bastava-lhes roubar um dos cavalos, galopar até o vilarejo e tomar um ônibus que partisse para a cidade. Ele pensou sugerir algo assim ainda no monastério, mas lembrou-se da frágil saúde do irmão caçula de Mason, o rapaz nunca o deixaria para trás.

— Quando vocês tentaram fugir da primeira vez, digo, você e o Jeremy, foram pegos por causa dos moradores? — Dan virou-se a observá-lo, e Marlon precisou esclarecer — Ficar trancado tanto tempo com garotos contadores de vantagem, facilita o propagar de boatos.

Mason meneou a cabeça voltando a conferir o caminho adiante.

— Não Gayler — exclamou por fim, parecendo recordar-se daquela ocasião — Não foi por causa dos moradores. — Ajeitou-se melhor nos agasalhos — E mais, este não é um assunto para discutirmos aqui. — indicou-lhe a avenida sem ruídos, e após conferirem ambos os lados, atravessaram pela intensa neblina, correndo para ocultar-se abaixo das marquises. O vento continuava a zumbir, balançando os pinheiros e espalhando o som que vinha da mata.

O Exorcismo de Marlon Gayler [Romance Gay]Onde as histórias ganham vida. Descobre agora