Capítulo 15 - Diálogos suspeitos

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I

Corra...

A mente ressonava conforme Marlon se esgueirava por entre os pinheiros do bosque sombrio.

Corra...

Seu coração palpitava acelerado, a boca estava seca, a respiração ofegante.

Corra... Corra...

Marlon sabia que estava sendo seguido. Sabia que alguém vinha logo atrás, caminhando em seu encalço, espreitando-o como se fosse um alvo, uma caça. Não tinha ideia de como havia chegado ali, mas a voz dizia-lhe que seria pego se não se apressasse. Muitos dias já haviam passado, Von Saint-Michel parecia uma parasita envolvendo-se ao redor de seus braços e pernas, e agora, também de sua boca, tentando fazer-lhe calar de temor.

Corra... Corra... Corra...

De repente ele parou, não havia para onde ir. Estava frente à borda de um desfiladeiro, as árvores que ficaram para trás formavam uma larga parede. Ficou a fitá-las por alguns momentos, respirando fundo, e então, na escuridão da noite, centenas de pontinhos vermelhos começavam a se acender por entre as copas, como pequenas lâmpadas traiçoeiras, olhinhos perdidos no breu.

O vento soprava frio, esvoaçando-lhe os cabelos, beijando a pele corada. Ele tornou a olhar para frente, o precipício parecia mais gelado que a neve que se aproximava, e agora, de entre a mata, a sombra que o perseguia enfim se faziam notar. Ele estava perdido, havia sido pego, nunca o deixariam partir daquele lugar. Com um nó na garganta, e as lágrimas de angústia querendo escapar-lhe os olhos cansados, Marlon observou a claridade de lamparinas rompendo o breu, ficando cada vez mais próximas, cintilando em suas pupilas. Não havia como prosseguir, não havia para onde fugir, Von Saint-Michel era uma prisão para garotos problemáticos, Von Saint-Michel era uma prisão da qual ninguém escapava.

***

Arfando o garoto abriu os olhos. Estivera tão cansado que não conseguira levantar-se quando o sino badalou mais cedo, despertando somente agora, devido os ruídos que se propagavam pelo corredor. O relógio avisava que havia perdido o café da manhã, e isso não importava, estava sem apetite naquela manhã de sábado.

Levantou-se massageando as têmporas, o coração apertado fazia um nó formar-se no centro da garganta, e mais que nunca, o desejo de gritar oprimia-lhe a alma. Podia ouvir os sussurros conforme os passos se propagavam lá fora, podia ouvir as pisadas fortes pelo chão e sabia que aquelas pertenciam a adultos, adultos que não integravam aquele ambiente.

Procurando controlar a respiração, Marlon se levantou aproximando-se da janela, postou-se frente a ela abrindo os vidros e recebeu uma lufada de ar frio da manhã. O céu permanecia nublado, as nuvens escuras passeavam refletidas em seu olhar, assim como os largos portões mais abaixo, que pela primeira vez Marlon presenciara escancarado para visitantes. Bem ao lado dele, rente aos arbustos, a silhueta de um dos freis projetava-se silenciosa, fazendo uma espécie de sentinela de boas-vindas. O homem observava os carros entrando pela estradinha de pedras desniveladas, indo estacionar sobre as zonas gramadas do jardim. Não eram muitos, como Marlon imaginou que seriam. Pela distância das cidades, já era de se esperar que toda aquela euforia fosse terminar desta forma, com poucos internos recebendo visitas, e muitos outros recolhidos aos seus aposentos, deprimidos por passarem um ano mais sem rever familiares. Von Saint-Michel era isto, um grande destruidor de expectativas, um grande destruidor de esperanças.

Marlon respirou fundo sentindo a manhã invadir o ambiente. Os corvos revoavam de um lado para o outro, a perder-se entre as nuvens.

Despindo-se das roupas de dormir, o garoto trajou o uniforme, vagarosamente, tentando decidir-se sobre o que fazer a seguir. O saco onde estavam guardados os objetos surrupiados por Dan permanecia oculto entre seus pertences pessoais no guarda-roupa. O celular agora desligado, também estava lá, com a filmagem que aumentara-lhe o temor de permanecer naquele lugar.

O Exorcismo de Marlon Gayler [Romance Gay]Where stories live. Discover now