Capítulo 11 - Descendo

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I

Silêncio. Apenas o vento dançava para além das paredes enegrecidas do monastério e corujas sibilavam pousadas em algum lugar lá fora. Era madrugada, e o nada dominava o hall. Parado no topo da escadaria, Marlon conseguia visualizar a porta entreaberta a ranger baixinho, provavelmente esquecida por um dos freis que fora se deitar e não a verificou. Tudo parecia tranquilo, não houvera alarmes quando a pouco ele deixou o quarto caminhando em direção à sua liberdade. Desta vez daria certo, desta vez iria para longe daquele lugar opressor. Degrau por degrau foi abandonando o primeiro andar até pisar cuidadosamente o assoalho no salão de entrada. Seu coração estava muito acelerado, apenas alguns metros o separavam da porta, e pelo que podia perceber, não teria dificuldades em atravessá-la.

Parou um instante para certificar-se de que o caminho estava seguro, para respirar. Então, olhando atentamente ambos os lados, trilhou rumo à saída na ponta dos pés. Pelas costas, o arcanjo emoldurado no antigo vitral parecia observá-lo, assim como a abominação na qual ele penetrava sua lança prateada. Um arrepio subia pela espinha. Temia que alguém aparecesse de repente e colocasse tudo a perder. Pressentia aquela presença vigilante desde que chegara ao monastério. Alguém o estava observando, ele sabia. Não compreendia o porquê, não fazia ideia de quem poderia ser, mas havia sim alguém que se ocultava para acompanhar seus passos. Paranoia? Fruto de sua imaginação? Quem sabe. Entretanto pensamentos atemorizantes de nada serviriam naquele momento, em breve tudo ficaria para trás.

Ele caminhou até lá e tocou a maçaneta com uma sensação nervosa diluída pelo sangue. Poderia ser a adrenalina, convidando-o a fazer-se livre finalmente. Receoso, puxou a superfície pesada ouvindo-a ranger e imediatamente sentiu a respiração prender no centro da garganta. O coração disparou ao observar o brilho do luar deslizar levemente pelo chão escuro, em direção à escadaria. O sangue circulava aquecido e cada célula do corpo parecia animada pela conquista. Já podia ver os portões enegrecidos ao longe, a estradinha de pedras desniveladas cintilava indicando-lhe o caminho. Respirou fundo olhando uma última vez para trás, tudo parecia solitário como esperava, mas então ouviu aqueles sussurros que vinham da lateral, em algum lugar para lá do salão comum:

— Eles desconfiam de nós — alguém dizia em confidência — temos que ter cautela, temos que ter muita cautela.

— Tento ser forte, mas estou com medo — uma segunda voz retrucou amedrontada. Desabafava quando imediatamente fora interrompida.

— Não diga isso — a primeira voz o reprovou — Não há o que temer. Tudo está bem, eu estou aqui, sempre estarei aqui — E então foi a vez da primeira voz:

Promete? — choramingava parecendo aflito e Marlon Gayler deixou a porta e ocultou-se, não podia ser descoberto — Promete que sempre estará aqui? — estava na ponta dos pés, parado ao lado da entrada do refeitório onde revezava olhares vez para a saída, vez para o topo da escadaria, e então para dentro do salão, curioso por distinguir o que acontecia ali.

Eu prometo — a segunda voz foi firme ao responder e Marlon não conseguia visualizar nem um e nem o outro — Mais que prometer, eu juro para você — ele falava decidido, o que apenas aguçou ainda mais a curiosidade. — Sempre estarei aqui. Sempre.

O garoto abriu os olhos e fitou os traços da luminária pendente acima da cama. O dia ainda não havia nascido e sobre a cômoda o relógio tictaqueava em sonoridade com a ventania. Desde que chegara ao monastério, era a segunda vez que tivera um sonho tão real como aquele. Agora, porém, não acordara assustado, a sensação era de angústia, um pressentimento como se algo de ruim estivesse para acontecer. O coração pulsava rápido, ele respirava com dificuldade e virando-se no colchão tentou voltar a dormir, mas, como conseguiria? Não podia parar de pensar, não podia deixar de se preocupar. Dan Mason estava lá embaixo, sozinho e faminto. Provavelmente também sentia dor. Certamente Alex Cotton não perdera a oportunidade de revidar a afronta.

O Exorcismo de Marlon Gayler [Romance Gay]Onde as histórias ganham vida. Descobre agora