Capítulo 10 - O zunido do vento

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I

Durante a refeição daquela tarde, Marlon permanecera outra vez atento aos cochichos que envolviam o salão comum. Se pela manhã estavam intensos, durante o almoço só tenderam a aumentar. Como era de se esperar, o assunto principal fora o ocorrido na sala do professor Cotton. Vez por outra algum frei pigarreava para que os internos fizessem silêncio, mas aquilo era impossível, já que os próprios velhotes viam a necessidade de comentar o fato. "Um disparate", eles diziam. "Agredir um professor?". Nunca imaginariam um desrespeito maior que aquele. Entretanto, pouco do que se murmurava era de interesse do rapaz. Ninguém comentava sobre o paradeiro do agressor. Dan Mason não estava ali, no lugar em que costumava fazer as refeições, assim como Alex Cotton e o padre-diretor, que também estavam ausentes.

Quanto a Jeremy, ao menos dele tinha notícias. Fora levado para o quarto por dois freis mal encarados, que entraram na sala minutos após Marlon conseguir fazê-lo recuperar o fôlego. Os dois homens sequer pediram explicações ou o parabenizaram pela atitude heroica. Olhando ao redor, requisitaram a um dos internos que apoiasse Jeremy nos ombros e o auxiliasse no trajeto até ao dormitório. Marlon ainda o ajudou a se levantar, mas o rapaz estava tão fraco que não conseguiu mover os lábios para agradecer, apenas trocaram olhares antes de ser conduzido para a saída. Suas pernas falhavam pelo trajeto, estava com dificuldade de visualizar o caminho, e de uma coisa Marlon tivera certeza ao observá-lo sumir no corredor, embora recuperado da crise, Jeremy Mason não estava nada bem, a saúde parecia debilitada, e a atitude de Alex Cotton apenas contribuíra para piorá-la.

DOOOOOM [...], DOOOOOM [...], DOOOOOM [...].

Quando o sino tocou, algum tempo depois, ele já estava a quase meia hora executando suas tarefas vespertinas. Como na tarde anterior, a faxina fora reiniciada mais cedo, tudo graças ao zunido do vento lá fora, que anunciava o inverno se aproximando. Desta vez ele não estava a faxinar o subsolo, até queria ter decido novamente àqueles corredores sombrios e afastados, a fim de investigar o que pensara ter visto, mas graças ao castigo de Dan Mason, fora realocado juntamente com Gurkievicz, para auxiliar Gomes na limpeza das cozinhas.

Todo o tempo Marlon procurava manter-se em silêncio, à distância dos dois. Só de olhar para a cara dos colegas, sentia o sangue esquentar e uma vontade louca de dar-lhes uns bons murros. Respirando fundo, tentava controlar os pensamentos, e com dificuldade, puxava os pesados sacos de grão a fim de limpar os cantos onde ficavam depositados. A parte mais chata, porém, não era a companhia indesejada de Gurkievicz e Gomes, mas sim o fato de os velhotes responsáveis pela limpeza estarem em seu encalço, a vigiar-lhe os movimentos, como se fosse algum tipo de presidiário. Vez por outra os ouvia resmungar irritadiços sobre ineficiência e velocidade, de como era fraco, de que naquele ritmo iria terminar somente no próximo inverno. Precisava respirar fundo e buscar autocontrole pra não deixar escapar um palavrão e piorar as coisas. Lá fora o vento persistia, o tempo estava nublado e as aves riscavam por entre as nuvens espessas. Ele podia observar tudo através das janelas de vidro: o muro de folhagens que delimitava os terrenos, a vasta mata de pinheiros para alem deles, a neblina.

Foi areando os panelões e mantendo os pensamentos distantes, que a determinado momento Marlon reparou que os resmungos cessaram. Virou-se olhando os arredores e percebeu que os velhotes haviam sorrateiramente deixado o local. O silêncio imperava na cozinha, e apenas o crocitar dos corvos era ouvido à distância. Gurkievicz e Gomes ainda permaneciam ali. Afastados, rente aos armários, guardavam as louças enquanto conversavam baixinho. A princípio o garoto resolveu permanecer a ignorá-los, mas então, foi como se o vapor do fogão a lenha trouxesse aos ouvidos o pronunciar daquele nome: Dan Mason. Ele aguçou melhor a atenção e agora, maneirando no arear, passou a atentar-se ao que falavam sobre o garoto.

O Exorcismo de Marlon Gayler [Romance Gay]Onde as histórias ganham vida. Descobre agora