Capítulo 7 - Dan Mason

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I

A carroça estava parada próxima às portas do monastério, aquecendo sob o sol da manhã. Alunos mais velhos a abasteciam com vários cestos pesados contendo legumes, verduras e hortaliças. Eles traziam os cestos de algum lugar na cozinha, e após descerem a escadinha procuravam acomodar a produção cautelosamente, de forma a não danificar as folhas.

O frei Ismael — também conhecido por frei Mamute — estava parado rente à carroça, conferindo o trabalho. Em silêncio, atava com firmeza um cabresto ao equino de pelugem castanho claro, que relinchava chicoteando o espesso rabo escuro.

Era manhã de sábado, e o sol refletia-se nas hortaliças distribuídas pelos cestos, cintilando as gotinhas de água que as mantinham frescas. Uma brisa soprava levemente pelos terrenos do monastério, e o delicioso farfalhar dos pinheiros era aproveitado pelos garotos que curtiam a manhã sem aulas, caminhando pelos jardins.

Frei Beterrabas.

Ouviu-se a voz do padre-diretor soar vinda da entrada. Ele estava parado a observar o trabalho.

Desajeitado, Beterrabas virou-se deixando cair um dos cestos, que espalhara várias cenouras pelo chão. Inquieto, tentava disfarçar o mau jeito com sorrisinhos sem graça, não sabendo se dava atenção ao padre, ou tentava abaixar-se para recolher as verduras.

— Está tudo bem frei? — O ancião questionou percebendo a estranheza.

S... Sim padre — Beterrabas engasgou — sim, diretor — respirou tentando se recompor — o senhor, o senhor precisa de algo? — perguntou secando as mãos nas laterais da túnica, evitando encarar o superior.

O padre-diretor permaneceu a fitá-lo por um instante com o olhar penetrante e desconfiado, mas pensando melhor, de todos os freis aquele sempre fora o mais desajeitado, resolveu ignorar — Não se esqueça de trazer as correspondências quando retornar — o exortou.

Após sua retirada, Beterrabas virou-se a agradecer alguns garotos que vieram auxiliá-lo com as verduras esparramadas, então, com ajuda do frei Ismael, acomodou-se no banquinho do condutor da carroça e deu leves chicoteadas no lombo do cavalo, que acostumado à rotina semanal, pôs-se a trotar para fora dos portões, rumo ao vilarejo que havia para lá da floresta de pinheiros. Era dia de feira.

"Esse frei das beterrabas, é um barato". Dan comentara com o colega, fitando a silhueta da carroça deixando os portões. Eles estavam sentados no gramado abaixo de alguns pinheiros, afastados da entrada do monastério, um ângulo que permitia boa visualização de todo o terreno. Foi dali que perceberam a aproximação de Marlon Gayler, vindo da porta distante. Os amigos trocaram olhares confidentes e o observaram subir a inclinação em sua direção.

— Precisamos conversar — ele disse ao chegar, ignorando a presença do segundo garoto, silencioso à esquerda de Dan Mason.

— Conversar? — Dan resmungou sem erguer os olhos — Não há o que conversarmos Marlon Gayler — respondeu grosseiramente, voltando a observar o movimento dos freis que caminhavam em duplas pelo jardim.

— Claro que há. — ele ignorou sua forma ríspida e prosseguiu — Você me deve uma explicação. — Então o ouviu rebater, agora erguendo os olhos de uma penetrante tonalidade escura a encará-lo:

Puts, como você é chato cara! Qual a parte do não há o que conversarmos tem dificuldade em entender? — e pegando algumas pedrinhas, passou a lançá-las ao longe — Agora cai fora daqui, estamos ocupados.

Marlon não se deu por vencido, sentido o sangue aquecer, lançou um rápido olhar para o garoto sentado ao lado, então prosseguiu:

— Quero que me devolva — foi incisivo — Pelo menos por esta noite, depois pode fazer o que quiser com ele — gaguejou seguindo a direção de seu olhar. Observou então, uma dupla de freis que passeava logo ali, conversando baixinho, com os olhos atentos ao movimento suspeito. Decidiu maneirar no tom, não queria que escutassem o diálogo, não seria inteligente.

O Exorcismo de Marlon Gayler [Romance Gay]Where stories live. Discover now