Capítulo 5 - Garoto em Fuga

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I

CABUMMM...

Houve uma longa pausa entre o primeiro e o segundo trovão que clareou a mata. Não entendia como chegara ali, ou melhor, não entendia como de uma hora para outra o dia convertera-se em noite e ele permanecera sozinho entre os pinheiros.

Marlon olhou ao redor no momento que o trovão clareou o local. Sem saber para qual direção seguir, ouviu passos aproximando-se de onde estava. Murmúrios precediam a caminhada e ele reparou que vários freis vinham pela estrada. Vestidos em túnicas escuras com capuz sobre a cabeça, traziam lampiões nas mãos, a fim de clarear o caminho. Sussurravam para si orações incompreensíveis, segurando terços que cintilavam ao balançar rentes à claridade afogueada das candeias. O que estariam fazendo?

O garoto os observou seguindo pelo percurso. À frente, quatro dos freis suspendiam um largo caixote retangular de madeira, firmando-o pelas laterais. Lembrara-se do caixão da mãe, na procissão pelo cemitério até o túmulo em Sheffield. Agora estava claro, aquilo era um enterro.

O rapaz parou rente a uma das árvores, observando os freis findarem a caminhada. Ao redor várias lápides se camuflavam no escuro, entre a mata alta e folhas de pinheiros. O silêncio caiu sobre a reunião, apenas alguns sussurros vinham lá da frente, onde dois dos encapuzados faziam o sinal da cruz, observando o caixote ser descido à cova escura.

"Um pecado imperdoável" — Marlon assustou-se quando um frei sussurrou bem ao lado —"Que deus tenha piedade de sua alma" — Reparou num outro, meneando a cabeça em acordo com o companheiro. Ambos desaprovavam aquilo. Ele respirou fundo, compreendera que não estava sendo visto, que isto era uma espécie de delírio, pesadelo. Não queria continuar no sonho tenebroso, comprimiu os olhos tentando voltar à realidade, mas apenas sentiu as primeiras gotas de chuva tocar seu rosto. Abriu os olhos, e lá embaixo os freis retomavam sua caminhada.

Em algum lugar outra vez um trovão retumbou clareando a floresta, as estátuas silenciosas, e revelando nas sombras um corvo de penas negras cintilantes. Parada sob a lápide fincada de mau jeito, a ave observava a retirada num grasnando agourento. Então ao desviar os olhos da fila de freis, fixara Marlon Gayler que assustado acordou no quarto escuro, sentindo uma fisgada no maxilar.

***

O coração pulsava acelerado como se o pesadelo houvesse sido real. Ainda podia sentir o cheiro da chuva se aproximando da colina e visualizar perfeitamente a imagem do corvo de olhos escuros o observando de sobre a sepultura. Sentou-se na cama reparando que o desconforto nos olhos acabara. A tontura havia passado, assim como o enjoo. Sentia-se apenas, mouco.

Quando levou as mãos à lateral do rosto, percebeu que haviam enfaixado o local que recebera o golpe. A bandagem dava uma volta cobrindo o queixo e a face esquerda, finalizando com um forte enlace ao redor da testa e nuca. A orelha do lado atingido estava oculta, deixando livre apenas a da outra extremidade, pela qual Marlon ouvia com dificuldade os vários ruídos vindo lá de fora, do início do corredor.

O barulho tornava-se cada vez mais alto conforme os passos seguiam tilintando pelo soalho de madeira, o ranger das dobradiças passou a ser ouvido e Marlon observou os vultos cruzarem frente à sua porta. Os companheiros de corredor retornavam do jantar, era o momento da reclusão.

Ele empurrou o lençol para um canto, descobrindo as pernas com a intenção de levantar-se. Quando apoiou os pés no chão ouviu outro ruído, este porém, reverberando mais alto. Alguém abria a porta e Marlon sentiu as vistas incomodadas pela claridade da lâmpada.

— Senhor Gayler — A voz inexpressiva soou. Não houve necessidade de esperar os olhos se acostumarem ao ambiente iluminado. Marlon sabia que o padre-diretor estava parado logo ali.

O Exorcismo de Marlon Gayler [Romance Gay]Where stories live. Discover now