Capítulo 4 - Regras Rígidas

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I

Dolorosa. Assim poderia ser definida aquela manhã. Marlon estava acomodado em sua carteira, imerso no silêncio da sala a copiar com dificuldade enormes textos que o professor Cotton transcrevia no quadro-negro. Como se não bastasse ter o rosto inchado pelo golpe que levara na noite anterior, os olhos ardiam e o estômago roncava em sintonia com a fome sentida por metade da classe.

Desta vez o castigo pelo "desrespeito" não sobrara apenas para ele, mas para todos os que estiveram no banheiro, independente de terem olhado ou não para seu corpo nu. Quando recobrara a consciência minutos após a pancada, deparara-se com o padre-diretor parado de pé, frente a ele, agora no salão comum onde os demais colegas aguardavam silenciosos, com as cabeças curvadas, temerosos pelo que viria a seguir.

— Senhor Gayler — a voz do padre era impassível — que diabos pensou estar fazendo? — ele o inquiriu com aquele tom acusador e arrogante. Não aguardou respostas, e nem era necessário, Marlon sentia tanta dor no maxilar que parecia tê-lo deslocado. Seria impossível explicar, principalmente vendo que o padre-diretor não tinha o menor interesse em apurar quem realmente estava com a razão. Para ele, o simples fato do "exibicionismo corporal", era indício decisivo para uma condenação. — Sair do banheiro pelado, expondo sua vergonha perante os colegas, e pior ainda senhor Gayler, acusá-los de está-lo espionando por uma fresta imaginária? O senhor não tem vergonha? — O velhote continuou a encará-lo e seus lábios secos tremiam de indignação. Quando o garoto fez menção de contestar, foi interrompido pelo superior que agora se voltava para cada adolescente silencioso — E os senhores? Uma corja de garotos imorais que preferiram observar a nudez alheia ao desviar os olhos do pecado — o padre estava bravo. Por um lado tinha suas verdades, muitos dos garotos, mesmo temendo o castigo que viria, apreciaram a visão do corpo nu. Nunca tinham visto acontecer algo assim no monastério.

O padre-diretor encarou os freis que estavam posicionados em um canto do salão a murmurar. Eles formavam um aglomerado ruidoso do qual apenas o professor Cotton, o brutamonte agressor e o gordinho conhecido por Beterrabas, participavam em silêncio. Então, ouviu-se outra vez a voz a reverberar:

— Jejum — Marlon percebeu que os garotos gemeram — E que seja com lágrimas — o padre prosseguia — Lágrimas para o arrependimento, lágrimas para que aprendam a consequência de seus atos levianos e indecentes.

E naquela noite não houve jantar para os garotos que chegaram cansados do trabalho árduo na horta. Famintos, eles observaram os demais se alimentarem de uma sopa que parecia deliciosa, enquanto em silêncio, numa mesa afastada, foram obrigados a descascar e fatiar várias sacas de cebola. Com o tempo, os olhos foram ficando irritados pelo sumo ardiloso que os legumes espirravam. As pálpebras pinicavam, as retinas ardiam, o globo ocular foi tomado por uma vermelhidão intensa e a visão embaçada provocou o incomodo lacrimejar.

Marlon sentia-se dez vezes pior, porque alem de ter que suportar a dor na face e o desejo de estar a quilômetros dali, agora sabia que os demais o encaravam furiosos.

O frei Cotton colocou um redondo ponto final ao texto que transcrevia para o quadro-negro. Sem dizer uma só palavra, apoiou o livro de capa dura sobre a mesa, passou um olhar intimidador pela classe e retirou-se por alguns instantes. Era possível ouvir seus passos seguindo pelo corredor, afastando-se cada vez mais em direção à escadaria.

Para lá da janela, no jardim, o cantarolar dos pássaros era interrompido pelo resmungar enraivecido de um dos velhos que perdera a paciência com algumas cabras que resolveram empacar no meio do gramado. Os animais negavam-se a todo custo sair do lugar. Bichos de pelugem encardida e olhar amarelado, fixos às janelas do primeiro andar. Permaneciam indiferentes ao resmungar irritado do frei, mesmo quando chicoteadas.

O Exorcismo de Marlon Gayler [Romance Gay]Onde as histórias ganham vida. Descobre agora