Capítulo 2 - O Garoto Problema

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I

A primeira noite longe de casa é sempre a mais difícil, principalmente quando traz consigo as recordações daquilo que se deseja esquecer. Ele tinha apenas dez anos, mas, pelo cintilar aflito nas lágrimas da empregada, compreendera que algo errado havia acontecido.

Marlon presenciara a briga dos pais mais cedo no jantar. A mãe havia descoberto outra traição, e fora demais para suportar. Encolhido nos lençóis, o garoto observara a sombra do chofer cruzar o corredor, carregando consigo as malas, e logo após, a senhora entrar no quarto, sentando-se ao seu lado, na cama confortável. Marlon não pôde apreciar o rosto dela no primeiro instante, estava de olhos fechados, fingindo dormir. Não sabia como lidar com as brigas do casal.

— Querido, você está acordado? — a mãe deslizou a mão por entre seus cabelos, e ele estremeceu — Psiu?! Abra os olhos estrelinha — beijou sua testa, e afastou-se observando o garoto despertar. Os olhos de Marlon estavam trêmulos, cintilavam no mesmo tom amendoado que os dela, e por um momento não teve palavras para falar. Então a mulher sorriu. — Filho. Presta atenção. A mamãe vai precisar fazer uma viagem, passar alguns dias na casa do vovô, tudo bem? — fez uma pausa, acariciando seus cabelos — Mas, eu prometo voltar para buscá-lo em breve, quando entrar de férias.

Ele sentou-se imediatamente, porém a senhora o segurou, buscando acalmá-lo. Ela estava com o coração comprimido, porém precisava transmitir-lhe que estava tudo bem, ainda que o pequeno pressentisse o ruir da família.

— Mas, viajar sem mim?

Marlon fitou seu olhar por um instante, ele sabia que ela havia chorado, então sentiu seus lábios beijar-lhe a testa. Levantando-se, a mãe ajeitou-o outra vez aos cobertores, e desligando o abajur, caminhou para a porta observando-o antes de sair. Esta foi a última vez que o garoto a viu, e agora, ela estava morta.

Sob o ruído de chaves abriu os olhos sentindo-se assustado. Estava imerso no escuro e sentia falta de ar, com as imagens daquela noite ainda diante de si. Acabara de rever as cenas do passado: a empregada entrando desesperada no quarto horas após a despedida, a notícia do acidente de carro, as atitudes ignorantes do pai. O estômago ronronava, a garganta estava seca e comprimida, sentia-se sozinho. Então, quando se sentou entre os lençóis protegendo os olhos da súbita claridade que invadiu o ambiente, observou a feição do padre-diretor parado à porta.

— Senhor Gayler? Bom dia. — ele esboçou um sorriso falso e olhou ao redor — Pelo que percebo, a noite em jejum fez bastante bem, não? E veja só, como imaginei, a compreensão também clareou seus pensamentos — o velho olhou para a lixeira ao lado da cama, e ali Marlon havia descartado todos os seus pertences. Aquilo tudo já não importava, não agora. Depois de pensar bem, o garoto deduziu que poderia adquirir tudo outra vez, mas no momento certo, agora, no entanto deveria submeter-se àquele teatro, ao menos até conseguir fugir.

Enquanto conversavam, o padre-diretor se afastou até a cômoda, e Marlon observou outro velhote entrar trazendo consigo lençóis limpos e uniformes. Ele o fitou por um momento, enquanto depositava os objetos sobre a cama. Trocando rápidos olhares, reparou em sua corcunda proeminente, e em como resmungava conforme recolhia os objetos descartados.

A voz do padre o interrompeu:

— Muito bem, agora que acordou é melhor se trocar rapaz. O café será servido em alguns minutos, e não vai querer chegar atrasado a seu primeiro dia de aulas.

Mal fechou a boca, ouviu-se o som de um sino retumbar lá fora, e o eco metálico fizera os corvos revoarem numa nuvem escura que ocultou o céu. O padre-diretor então caminhou até a janela, observou o dia que amanhecia, e voltando ao velhote corcunda se retirou.

O Exorcismo de Marlon Gayler [Romance Gay]Where stories live. Discover now