Capítulo 38 - Frente a Frente

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A primeira coisa que senti foi uma estranha sensação de enjoo junto a uma pressão na parte posterior da minha cabeça, o que tornava tudo bem pior. Meu corpo estava dormente, como se ainda não tivesse despertado como meu cérebro. Tentei respirar fundo e um cheiro podre invadiu minhas narinas fazendo a vontade de vomitar se tornar maior. Me virei de lado, meus dedos tocaram um chão frio – ao menos era o que parecia. Minhas costelas arderam, todo meu corpo se contraiu com o movimento. Parecia que tinham me jogado no chão de qualquer jeito e foi ali que as lembranças surgiram. Eu fora capturada na floresta e alguém tinha utilizado alguma substância para me dopar. Chris... Benjamin... Abri os olhos imediatamente para encontrar uma escuridão mortal. Julie... Giovanna... mais lembranças. Sentei rapidamente, fazendo meus músculos protestarem. Mahlars... eu me lembrava de tudo.

- Que bom que acordou, eu já estava ficando preocupado. – o susto veio imediatamente e virei meu rosto, forçando a vista à procura do autor da voz. Encontrei uma silhueta abaixada mais a frente, a uma certa distância.

- Quem é você? – perguntei temerosa que estivesse frente a frente com o bruxo.

- Me chamo Ramon. Meu senhor me mandou observa-la e assim que acordasse deveria ser levada até ele. – era estranho sentir simpatia na voz daquele homem que deveria ser um psicopata – Vamos!

- Espera! Seu senhor?

Ramon esticou a mão para a esquerda e acendeu uma tocha no canto me dando uma visão melhor do lugar. Não foi uma boa ideia, preferia a escuridão. Pelo menos antes eu não tinha noção do lugar nojento em que eu estava, muito menos dos insetos e da grade que impedia minha saída.

- Mahlars. Ele tem planos para você. – meus braços estavam arrepiados. Aquele encontro não deveria acontecer agora, nem nunca, mesmo que eu soubesse que era inevitável! Mas para aquele momento em especial eu não estava preparada.

- Que tipo de planos?

Ramon abriu uma pequena parte da grade.

- Não me faça perguntas, apenas obedeça e me siga! – sua voz saíra ainda mais autoritária, mas ele mal me encarava. Parecia incomodado com algo.

- Está tendo problemas, Ramon? O mestre já está impaciente com a demora. A garota morreu? – uma outra voz ecoou um pouco mais acima. Passos soaram enquanto quem quer que fosse atravessava o que julguei ser uma escada e parava ao lado de Ramon.

- Ela não morreu... para a sorte de vocês. – Ramon disse entre os dentes e em seguida me olhou. – Vamos, garota!

A presença do segundo homem tinha me dado arrepios que Ramon não conseguira. Suas roupas eram escuras com detalhes em vermelho, trazia uma espada na cintura, não possuía cabelos, mas em compensação trazia uma barba enorme e suja. Parecia uma espécie de guarda naquele lugar. Ainda trêmula me ergui e caminhei para fora.

- Quanta lerdeza! Ande logo! – o guarda me empurrou assim que passei pela grade. Minha reação instintiva foi me virar para ele e encará-lo, meus punhos cerraram-se para reagir. O homem sustentou meu olhar por apenas um segundo antes de desviar incomodado. Respirou fundo e me encarou novamente. – Você quer morrer logo no primeiro dia? Não vai ser um problema para mim.

- Chega, Norman! Vamos levá-la de uma vez. Deixe que Mahlars decida o que fazer. – Ramon passou ao lado do guarda, segurou meu braço e me puxou em direção as escadas.

- Tomara que ele lhe dê de comida para os crocodilos. Vou adorar ver isso! – ouvi Norman dizer antes de chegar ao topo da escadaria.

Uma porta foi aberta, a luz quase me cegou. Ramon continuou a me puxar pelos corredores mesmo que eu estivesse tropeçando em meus próprios pés sem conseguir enxergar nada. Quando meus olhos acostumaram-se, encarei fileiras de guardas encostados na parede, observando meu trajeto. As paredes eram altas e escuras, o chão ornamentado com carpetes em tom vermelho sangue. Em todos os cantos vi o símbolo de Mahlars: a cobra enrodilhada ao diamante. Aquilo me fez engolir em seco. Eu não via janelas, o que obviamente tinha sido pensado para que eu não fugisse. O que nem era necessário já que eu nem chegaria até elas com todos aqueles homens. O pânico me dominava cada vez mais, eu precisava de um plano... precisava de tempo. Encarei meu corpo, o vestido dourado do festival estava um caos, completamente sujo e se meus braços também estavam tão sujos e marcados, eu nem queria ver o meu rosto e o cabelo.

O Mistério de Allíshya - Perdida | Livro 03Leia esta história GRATUITAMENTE!