Capítulo 35

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Dormi pela maior parte da viagem e fui acordada por uma mão gentil e leve. O Sheik sorria como se eu fosse uma criancinha, filha dele. Disse que chegamos, e que era bom eu colocar um casaco.

Pela janela percebi o jato taxiando na pista, uma chuva fina e um tempo nublado. Nunca tinha saído do país, e a atmosfera parecia outra. O ar era diferente. Procurei uma blusa na minha bagagem de mão e só achei um moletom. Foi ele mesmo, por cima do vestido que eu queria muito tirar. Vi a tripulação sair das cabines e se arrumarem em fila, pegando a bagagem do sheik, sorrindo solene para mim e para ele.

— Fique dois passos atrás de mim. – Ele mandou e eu, como funcionária da Botelho: Breed and Race Horses, obedeci. – Depois te explico.

Avançamos pela área não-comercial do aeroporto, mostrei meu passaporte na alfândega, um homem de paletó de tweed, óculos e cabelos encaracolados arrumados com gel esperava por nós com uma pasta aberta e abarrotada de papéis na frente de um policial da alfândega.

O que eu mais observava era o sheik. Como as pessoas se curvavam a ele, como elas se abriam e ficavam nervosas. Eu sabia que ele era autoridade, mas como ele tratava a Dê como uma amiga muito íntima, eu não o via assim. Achava engraçado. Peguei o celular enquanto ele e o homem de tweed resolviam alguma coisa, e tentei, em vão, acessar a wi-fi do aeroporto para avisar a minha família que tinha chegado.

Depois pegamos um carro com motorista e viajamos por mais duas horas em meio a uma neblina cinzenta e muita chuva até pararmos num portão de ferro vazado, coisa de mansão mal assombrada, e então entramos.

Tive certeza que era tudo das Botelho quando vi a lama e os tratores estacionados na frente de valas. O futuro da empresa delas é na Europa e fiquei orgulhosa de pensar que elas começaram tratando um cavalo doente e se estenderam. O carro em que estávamos continuou pela estrada de pedra morro acima e, alguns quilômetros na frente, vi minha nova morada.

Provavelmente aquela casa era do sheik, não delas. Porque era muito moderna, muito chique, e muito grande. A casa do meu irmão é bonita, mas não tanto assim. Duas mulheres vestidas com roupas de empregada esperavam por nós, na entrada, com guarda-chuvas e saltos. Será que é ali que eu vou morar?

Eu já sabia, por ter pesquisado um pouco, que as mansões árabes têm pátio do lado de dentro, como se fosse um forte, mas não sabia que podia ser tão lindo. A primeira sala era uma sala de estar com uma televisão gigantesca, sofás, e uma porta de vidro para um jardim, enquanto, se eu olhasse para cima, veria o parapeito de vidro dos corredores dos provavelmente quartos.

— Anne vai te guiar para seu quarto. – O Sheik disse e foi embora.

Fiquei sozinha com a moça que se chamava Anne e que, a primeira coisa que me perguntou é se preferiria se ela falasse em inglês, espanhol, ou alemão. Eu, com meu inglês tortinha, falei que preferiria inglês e então ela me guiou escadas acima, me tranqüilizando dizendo que minha mala logo seria entregue no quarto, e subimos.

Andressa não dá ponto sem nó. O quarto era mais lindo que o quarto do hotel mais chique de São Paulo. Ativado por senha, Anne me deu um cartão e disse que, quando eu quisesse, poderia configurar a senha do quarto para que ninguém tivesse acesso a ele.

(Mas não era sobre isso que eu falava quando mencionei o ponto com nó da minha cunhada). O lance é que, em cima da cama, um vestido novo, uma caixa de presente, e uma pasta me esperavam. Na caixa de presente tinha um celular e as chaves de um carro. Na pasta, o itinerário obrigatório dos próximos três dias porque, essa parte ela não me disse no Brasil, eu era a única responsável pela reforma dos estábulos a construtora responsável daria festas e coletivas de imprensa para dar início nas obras.

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