Capítulo 37 - Caminho de Casa

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Ótimo! - pensei. O momento de calmaria estava chegando ao fim para começar a tão costumeira tormenta.

Ollin não nos deu tempo de responder nada. Ele virou-se, o rosto ainda mais carrancudo provavelmente pelo tempo que levou nos procurando. Christopher e eu trocamos olhares antes de irmos em frente.

Ollin seguiu pela esquerda da fonte e contornou algumas árvores altas até chegar a uma parede brilhante que possuía metros de altura, eu não conseguia ver o topo. Foi só depois que entendi o que era, estávamos na parte dos fundos do templo. O homem nos mostrou uma das entradas daquela área e nos esperou, disse que era melhor não chamarmos a atenção do povo, indo pela frente, pois eles provavelmente iriam querer saber porque dois desconhecidos eram os únicos a entrar no templo.

Lá dentro haviam escadas para subirmos, muitas escadas, incontáveis degraus. Já conseguia sentir a dor em meus músculos antes mesmo de iniciar o trajeto. Novamente me lembrei das palavras ditas pelas mulheres da casa de Hal, aparentemente eu ia desobedece-las e precisaria implorar para que eu não morresse no meio do caminho. Quando finalmente chegamos no topo eu já tinha perdido a noção do tempo, estava ofegante e suada. Christopher não estava tão diferente e Ollin fez questão de nos olhar com desdém. Não havia uma gota de suor em seu corpo, claro, ele já estava acostumado.

Passamos por uma entrada estreita e quase paralisei quando finalmente saímos no salão do altar de Hal. Não era por sua beleza, - claro, isso ele tinha e muita - mas sim porque uma lufada de ar atravessou meu corpo, refrescando-me imediatamente. Parecia que eu estava entrando em um novo ambiente, completamente alheio ao que me expus do lado de fora. O templo era bem parecido com o de Állya, mas ainda mais deslumbrante por causa dos tons brancos e dourados impregnados em tudo. Hal estava sentando com as pernas dobradas, as mãos voltadas para frente e os olhos fechados. Parecia meditar. Havia uma estátua ao lado, junto a algumas frutas e travesseiros, era praticamente um quarto de luxo para o deus.

Ao me aproximar assustei-me quando a estátua de cobra ao seu lado se mexeu. Hal esticou uma das mãos para indicar que o animal ficasse calmo e só ali percebi que o mesmo estava realmente vivo, não só isso, que eu estava encarando a boitatá. Meus olhos arregalaram-se quando suas duas órbitas de fogo me encararam.

- Sim, ela voltou ao seu lugar de origem. - Hal disse sem abrir os olhos - Boiúna também encontrou um lugar no templo de minha irmã. Este não era muito apropriado para ela. - explicou sem que eu questionasse. Assenti, me perguntando como ele sentira o ataque da cobra mesmo sem vê-la. - Mas não foi para isso que os chamei aqui. - Hal abriu os olhos e tive vontade de correr, eles estavam assustadoramente como os da boitatá, tomados por uma luz alaranjada como fogo.

- O que houve? - Christopher questionou quando o deus demorou a dizer. Estava inquieto. - Para nos chamar com tanta urgência deve ter sido algo grave.

Ele concordou.

- Os chidiyanos estão se preparando para a batalha, mas parece que eles estão adiantando-se por algum motivo. Seus amigos não sairão ao amanhecer, estão juntando-se nesse momento para partir.

- Mas tão cedo? - perguntei sentindo a preocupação chegar - Ainda nem amanheceu.

Hal apenas assentiu antes de seus olhos voltarem ao normal e ele me fitar com uma certa pena.

- Sim, mas houveram algumas mudanças nos planos. Parece que a situação é mais do que séria. Aconselho que voltem imediatamente, vão precisar de vocês.

Eu não precisava ouvir mais nada. Concordei rapidamente puxando Christopher em direção a saída. Ollin veio atrás de nós, aparentemente ele nos mostraria o caminho. Descemos tão rápido que nem parecia que havíamos subido tantos degraus. Encontramos os outros rapidamente, até mesmo Benjamin que antes desaparecera. Preferi não perguntar onde ele estava. Explicamos brevemente a situação e fomos em direção à casa de Don. No quarto capturamos nossos pertences, de fato a coroa estava a salvo como Ollin dissera. Lá no fundo da bolsa encontrei a garrafa que Buu me dera, ela estava intacta. De repente uma falta de ar me invadiu, junto a uma dor no abdômen. Me sentei na cama, respirando fundo.

O Mistério de Allíshya - Perdida | Livro 03Leia esta história GRATUITAMENTE!