4 - Sonho de rosas

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Uma das peculiaridades de Vila das Estações era o fato dela ser rodeada por flores. Como ficava em um vale, havia montanhas ao seu redor e ao pé dessas montanhas ficavam: o Roseiral Medeiros, o Roseiral Galvão, a Fazenda de Margaridas Laifi e a Fazenda de Lavandas Torres. E foi nisso que Cecília pensou ao sair da Vila para visitar o pai naquela manhã. Ela queria visitá-lo todos os dias, ao menos naquela semana, já que se aceitasse o emprego, seu tempo se tornaria escasso.

Quando saiu da Mansão no dia anterior, estava tão absorta em seus pensamentos sobre a proposta de emprego que nem se lembrou de visitar o roseiral na parte de trás da casa. Prometeu a si mesma que na segunda, quando fosse dar a resposta à senhora Sônia, não deixaria de passear por entre as rosas.

Chegou à casa de repouso em que seu pai estava e após se registrar foi até a sala de apoio para familiares onde realizou procedimentos de higiene e pegou a máscara que era obrigatória. Depois, entrou pelo corredor que dava acesso aos quartos. O do seu pai era o penúltimo à direita. Ela entrou e o encontrou deitado lendo um livro.

— Papai?

Ele abaixou o livro e sorriu ao vê-la.

— Ceci! Que bom vê-la, querida.

— Gostaria de abraçá-lo.

— Mas sabe que não pode — afirmou, sentando-se na cama.

Cecília sentou na cadeira que ficava no lado oposto do quarto. As visitas eram permitidas, porém havia muito rigor sobre o contato com pacientes. Ela sempre deveria lavar bem as mãos antes e após as visitas, além de sempre utilizar a máscara enquanto permanecesse na casa. Somando a isso havia também a proibição dos abraços que Cecília tanto queria dar no pai.

— É, eu sei. — Deu um sorriso sem graça. — E como o senhor está?

— Bem. Não faço outra coisa senão ler e dormir.

— Está se alimentando?

— Sim. Até que as refeições são boas. Ontem serviram uma sopa de legumes que estava deliciosa.

— Que bom! Fico aliviada em ver que está bem. Até está lendo!

Mauro sorriu.

— É. Eu nunca tive muito tempo para leituras, estou aproveitando essas férias forçadas.

— Faz bem, papai.

— E você, querida? Está bem lá sozinha?

— Sim. Comprei algumas coisas que estava precisando para casa e tive até uma entrevista de emprego ontem.

Mauro franziu a testa.

— Mas já? Onde?

— Na Mansão Medeiros.

Os olhos de Cecília brilharam. Mauro sabia que a filha tinha um sentimento especial pela Mansão, mas também sabia que trabalhar ali não era nada fácil. Então sua expressão não foi das melhores, desapontando a filha.

— Nossa, achei que ficaria feliz por mim.

— E o que você faria na Mansão?

Cecília relatou brevemente a conversa que tivera com Sônia no dia anterior, enquanto Mauro escutava com uma expressão carrancuda. Quando ela terminou, esperou que o pai falasse:

— Acho que você não deve aceitar.

— Mas, papai! O dinheiro é muito bom! Eu poderia dar aulas, como fazia na capital e ainda teríamos como poupar.

Quando a música morreu (DEGUSTAÇÃO)Onde as histórias ganham vida. Descobre agora