3 - Além de professora

Começar do início
                                                  

— Hum... Só temos uma escola... — Pareceu pensativa. — Quer dizer... Espere um pouco. Eu já volto.

A garota foi em direção ao que devia ser a cozinha e voltou alguns instantes depois.

— Fui perguntar para Maria, ela me disse que na Mansão estão precisando de uma professora.

— Mansão?

— Sim. Dos Medeiros.

— Ah! Interessante. E ela disse a quem devo procurar?

— Sônia.

— Tudo bem. Obrigada... Como é seu nome?

— Daniela.

— Obrigada, Daniela. Você é muito gentil.

— De nada, senhorita...

— Cecília.

— Senhorita Cecília.

— Pode me chamar só de Cecília.

Daniela sorriu e voltou para o balcão para atender a um cliente que chegara naquele instante. Cecília se concentrou em saciar sua fome. Quando terminou, pegou algumas coisas que precisaria para a manhã seguinte, pagou e foi para casa.

Só mais tarde, quando se deitou, foi que se deu conta: ela iria até a Mansão. Veria novamente o Roseiral Medeiros e as lindas rosas vermelhas!

Na manhã seguinte, Cecília acordou cedo. Estava um pouco ansiosa com a ida até a Mansão, que em sua infância era como um castelo todo festivo e iluminado. Havia tanta vida dentro daquelas paredes que, quando criança, ela sempre se sentira eufórica só de pensar que estaria lá. Não foi diferente naquele dia, mesmo após tantos anos.

Escolheu uma linda saia godê da cor de caramelo e uma blusa azul que lhe caía muito bem. Seus cabelos estavam com ondulações perfeitas naquela manhã, então, ela não gastou muito tempo para arrumá-los presos de um lado apenas. Pegou sua bolsa de mão e pensou em como chegaria até a Mansão. Cecília gostava de caminhar, mas sabia que era um pouco distante para ir a pé. Foi quando se lembrou da bicicleta que seu pai tinha lhe mostrado quando chegara. Foi até o quintal e lá estava ela, toda vermelha e empoeirada pelo desuso. Mauro sempre usava o carro de transporte do Roseiral, assim a bicicleta ficava lá, parada e esquecida. Cecília então se lembrou: era de sua mãe.

Pegou um pano na cozinha e limpou-a, deixando o vermelho mais vivo. Tinha uma cesta na frente, que ela também limpou e colocou a bolsa. Depois rodeou pelo lado da casa, saindo em direção à rua. Montou na bicicleta, pensando que fazia muitos anos desde que andara pela última vez, mas como diziam que quem aprende a andar de bicicleta nunca esquece, ela confiou nisso e começou a pedalar. No início, não conseguia manter a linha reta, tendo seu equilíbrio em teste, todavia bastaram alguns minutos sem cair para que ganhasse mais confiança e pedalasse com firmeza. O dia estava ensolarado, as nuvens brancas formavam lindos desenhos no céu e, se não tivesse que prestar atenção ao caminho, com certeza brincaria de descobrir com o que cada nuvem se parecia. Ela e Jude sempre faziam aquela brincadeira quando crianças.

O percurso era conhecido e pouca coisa havia mudado, só uma ou duas casas novas, mas, no geral, muitas árvores ainda ladeavam a estrada de terra, tornando o caminho delicioso de percorrer e diminuindo o calor. Quando avistou a Mansão, seu coração acelerou. Ela estava diferente. Cecília pedalou até o grande portão de ferro, que estava enferrujado, e parou. Parecia a mesma, mas diferente. Se antes, Cecília descreveria como um castelo, naquele momento o castelo parecia em ruínas. Não era bem o aspecto estrutural, tudo estava no lugar, só que parecia abandonado, como se ninguém morasse ali. Será que após a morte do pai, o herdeiro tinha ido embora? E se estava vazia, por que precisavam de uma professora? Talvez Daniela tivesse se enganado.

Quando a música morreu (DEGUSTAÇÃO)Onde as histórias ganham vida. Descobre agora