3 - Além de professora

10 1 0
                                                  

Quando Cecília voltou de Vila das Fontes na segunda-feira, estava exausta. Seu pai tinha precisado ficar internado em uma casa de repouso para pacientes com tuberculose. Cecília se lembrou da mãe. Provavelmente havia sido a mesma doença, com tratamentos bem diferentes. Ela só torcia para que o pai resistisse, não queria ter de lidar com outra perda como aquela.

Apesar de Mauro resistir inicialmente a ficar de repouso, logo os olhos suplicantes da filha o convenceram. Ele sabia o que significava para ela que ele se curasse e faria o que fosse preciso para manter sua Cecília feliz. Após os ajustes necessários, Cecília ainda precisou comprar algumas coisas que o pai precisaria, objetos de uso pessoal que os dois não levaram, pois não sabiam que seria necessário a internação. Ela só conseguiu retornar para casa quando já anoitecia. Além de cansada, estava preocupada. Tinha feito algumas contas e notado que a internação iria requerer o uso de boa parte de suas economias. O médico havia dito que Mauro precisaria de, no mínimo, duas semanas ali, então Cecília, que tinha levado algum dinheiro, pagou a primeira semana e ficou de retornar com o resto, esperando que o pai realmente se recuperasse naquele período, não apenas pela questão financeira, mas pelo alívio de saber que tudo ficaria bem.

Depois de tomar banho, Cecília verificou os armários e notou que não tinha muitas opções de comida. Pensou em Jude, porém uma visita com o propósito de se alimentar seria de extrema grosseria com a amiga. Apesar da boa vontade que Jude sempre demonstrava para com Cecília, ela não queria extrapolar. Lembrou-se da confeitaria que tinha visto na praça. Não era da sua época de criança, mas parecia acolhedora e provavelmente teria algo para comer.

Colocou um vestido florido, uma sapatilha e seguiu para confeitaria, com o estômago reclamando de muita fome. Durante o curto trajeto até o local, Cecília não conseguia parar de pensar em dinheiro e gastos. Logo, se deu conta de que precisaria de um emprego antes do previsto. Por mais que o pai insistisse que quando ele voltasse para casa, ela também poderia retornar para capital, Cecília sentia que não era isso que devia fazer. Queria ficar. Pelo pai, pela saudade e principalmente pela sensação de que havia algo ali que a atraía, embora não soubesse o quê.

Chegou à confeitaria e se animou com o cheiro de sopa que enchia o lugar. Andou por entre as prateleiras, pensando que, depois de comer, deveria comprar algumas coisas para o dia seguinte. No balcão, uma moça sorridente, de olhos grandes e castanhos, a atendeu. Tinha canja, sopa de ervilha e de legumes. Cecília escolheu a de ervilha, pedindo também croissants de queijo e uma xícara de café.

— Pode se sentar em uma das mesas, eu já levo pra você.

— Obrigada.

Cecília se sentou à mesa perto da grande janela de vidro que dava para a praça. As lembranças da sua infância vieram com facilidade. É claro que a praça estava diferente, contudo os bancos tinham o mesmo tom azul, havia os enormes ipês brancos, amarelos, roxos e rosas rodeando o local. De novo havia um coreto, uma fonte e mais bancos. Era um dia de semana, então estava vazia, a não ser por alguns idosos que jogavam xadrez em uma mesa perto do coreto.

Uma das coisas que ela mais gostava da Vila era como a natureza se mostrava em toda sua glória. O céu parecia mais azul, as nuvens mais brancas e desenhadas, o sol mais vívido e as estações perfeitas. Na cidade era sempre chuva ou sol escaldante. Poucas árvores, poucas praças e pouca natureza para se ter contato. Cecília sentira falta daquilo, e só depois de voltar para Vila, foi que se deu conta do tamanho da saudade.

— Aqui, senhorita. Seu pedido.

A moça colocou a sopa, os croissants e a xícara de café na mesa.

— Obrigada.

— De nada.

— Ei! — A moça se virou novamente. — Você por acaso saberia de alguma vaga para professora por aqui?

Quando a música morreu (DEGUSTAÇÃO)Onde as histórias ganham vida. Descobre agora