2 - Vila das Estações

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Jude não trocaria Vila das Estações por nada. Mas tinha certeza de que talvez a recém-chegada amiga não tivesse tanto apreço pela cidade como ela. Então, precisaria convencê-la de que ali era o melhor lugar para se morar; precisava de uma amiga, de uma confidente e mais que isso, tinha uma estranha sensação de que Cecília encontraria em Vila das Estações alguma razão para ficar.

Deixando seus pensamentos mudarem de direção, ela desenformou os muffins e os ajeitou em uma bandeja que separara. Depois, preparou café e desligou a panela do creme de batatas que preparava para o jantar. Era hora de tomar banho e se arrumar para receber a amiga.

A viagem fora cansativa, ainda mais em um ônibus com poltronas que não reclinavam, um bebê que chorara quase toda viagem, uma mulher que parecia ter comido algo estragado e não parava de deixar o banheiro do ônibus com um cheiro terrível que, é claro, empesteava todo o veículo. Cecília estava desesperada para esticar as pernas e poder tomar um banho, além de respirar ar puro.

Avistou a entrada da Vila que continuava igual, um arco de madeira com o nome Vila das Estações, além de um canteiro de rosas em cada lado do arco. Ela sorriu e sentiu-se aquecer, veria o pai, Jude e as rosas. Foi a primeira vez que a lembranças do roseiral Medeiros lhe veio à mente depois de tantos anos. Sentiu-se ansiosa, precisava dar um jeito de visitar o lugar, mesmo sabendo que seu pai já não trabalhava efetivamente na colheita. Depois de um problema na coluna, ele passara a administrar a entrega das rosas em cidades vizinhas, coisa que ela nem sabia se seria possível continuar a fazer, já que estava doente.

O ônibus parou na praça para que os passageiros destinados à Vila descessem. Cecília ficou contente por finalmente se levantar e sair do ônibus. Deu seu bilhete para o motorista que lhe entregou a mala bem rápido. Olhou ao redor e avistou uma moça de cabelos castanhos cacheados acenando para ela e atravessando a rua com uma pequena cesta em mãos. Era Jude; ela reconheceu pelos olhos pequenos e pretos, além do sorriso inconfundível. Sorriu de volta para a amiga e abriu os braços. As duas se abraçaram forte, depois de Jude colocar a cesta no chão.

— Ceci! Que maravilha! Como você está linda!

Jude fez a amiga dar uma voltinha, vendo a saia azul turquesa plissada girar no ar. Cecília sorria enquanto rodava, depois voltou a abraçar a amiga, de quem se sentia muito próxima, mesmo tantos anos longe.

— Você está linda, Juju!

— E você radiante!

As duas sorriram. E Cecília praticamente esqueceu todo o cansaço.

— Trouxe uma coisa pra você.

Jude pegou a cesta e estendeu para a amiga. Cecília a pegou e abriu, sentindo primeiro o aroma dos muffins e em seguida, seu estômago roncar de fome.

— Muffins!

— E os meus são famosos por aqui. De laranja com cerejas em calda.

— Nossa! Preciso comer, acho que a última coisa gostosa que coloquei na boca foi um pão de cebola lá na cidade ainda.

— Pensei em te convidar para jantar lá em casa, mas imaginei que estivesse ansiosa para ver seu pai.

— Estou sim. E bem aflita, na verdade.

— Estive com ele ontem, a tosse tinha melhorado um pouco, mas ele ainda se recusa a ir ao médico lá em Vila das Fontes.

— Meu pai sempre foi teimoso e avesso aos médicos. E vocês ainda não tem um bom médico por aqui? E o doutor Peixoto?

— Foi embora — Jude respondeu enquanto as duas caminhavam em direção à rua em que moravam. — Mas o senhor Galvão disse que em breve chegará um novo médico.

Quando a música morreu (DEGUSTAÇÃO)Onde as histórias ganham vida. Descobre agora