2 - Vila das Estações

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Jude estava satisfeita com o resultado de seu trabalho em casa naquele sábado. Ela fez uma verdadeira faxina, limpado todas as janelas, batido os tapetes, lavados os lençóis que, naquele momento, recolhia do varal, já secos. Também, com aquele sol e o vento fresco, qualquer roupa secava rápido. Jude terminou de recolher todas as peças e entrou em casa segurando a cesta de roupas ao lado do corpo, sentiu o aroma de seus famosos muffins de laranja com cerejas inundarem toda a casa, e sorriu.

Os sábados eram sempre iguais para ela. Aproveitava que a mãe saía para fazer a feira e visitar os avós, passando o dia inteiro fora, e fazia sua faxina sem nenhuma interrupção. Depois de trabalhar durante toda a semana no Roseiral Galvão, era no sábado que ela podia colocar as coisas em ordem e até fazer os quitutes que seu noivo, Thomas, tanto gostava.

A vida na Vila das Estações era tudo que Jude gostava, simples e tranquila. Havia crescido com poucas aspirações, queria apenas encontrar um homem bom e fiel que fosse seu marido e pais dos filhos que queria ter, pelo menos três. Queria uma família grande, uma mesa cheia nos almoços de domingo, barulho de criança pela casa e um futuro repleto de netos, uma vida bem diferente da que ela mesma tivera, já que era filha única e perdera o pai quando ainda era um bebê, mal se lembrando dele, a não ser pela foto que a mãe fazia questão de manter acima da lareira da sala.

E Thomas se mostrava exatamente o que ela queria. Era trabalhador e pacato, o tipo de homem que daria um belo pai, nunca deixando que nada lhe faltasse, ou aos futuros filhos. Jude retirou a forma repleta de muffins do forno e sentiu orgulho de si mesma. Sabia que seu noivo adorava aquela receita, mas naquele sábado, pretendia que mais alguém se deliciasse com seus dotes culinários. Ceci, sua amiga de tantos anos, tinha lhe enviado uma carta avisando que chegaria no ônibus das dezoito horas naquele sábado.

Jude estava animada, já que fazia tantos anos que não via a amiga, queria abraçá-la e juntas tomariam uma xícara de chá com os muffins. Esperava não apenas matar a saudade, mas, de certa forma, impressionar a amiga da capital com sua vida tranquila e promissora. Apesar de Ceci ter nascido na Vila e ali morado até os doze anos, quando sua mãe morreu, ela fora para a cidade, estudara, se formara e trabalhava como professora, o que era bem diferente do que Jude vivia. Sabia que não era uma competição, apenas não queria se sentir por baixo. Respirou fundo, sentindo o aroma delicioso e colocando a forma em cima da mesa para que esfriassem e ela pudesse desenformar.

Enquanto esperava, foi até a porta da cozinha que dava para um terreno aberto e um vasto gramado, de onde ela podia ver as montanhas que cercavam a Vila e davam ao lugar, um toque de encantamento e exclusividade, como se seus moradores vivessem em um paraíso privado. Vila das Estações tinha suas peculiaridades como as estações do ano bem definidas, e daí vinha o nome, claro. O verão era sempre quente, como aquele estava sendo, repleto de sol e dias que animavam ao mesmo tempo em que tiravam a força por causa do forte calor. Naquela época do ano, os moradores da Vila costumavam ir até a Cachoeira das Rosas para piqueniques e aproveitarem para se refrescar. No outono, as árvores trocavam suas folhas que caíam marrons, deixando as ruas com um aspecto bucólico, o vento se tornava mais fresco, preparando todos para o inverno que viria a seguir. E era justamente essa a estação do ano mais complicada e adorada ao mesmo tempo, pois a pequena Vila sentia a temperatura cair, a chuva vir e muitas vezes até chegava a nevar, o que proporcionava um espetáculo para as crianças que tentavam em vão fazer bonecos de neve. Era a estação preferida de Jude, que amava sentar-se em frente à lareira com Thomas, desfrutando de um bom chocolate quente ou vinho aquecido com canela. E depois, a primavera. Nem o mais ranzinza dos homens poderia negar a beleza que era a primavera na Vila, além dos roseirais da cidade explodirem das mais belas rosas, o lugar ainda tinha um Jardim Público que se enchia de cores de variadas flores. Cravos, margaridas, gardênias, jacintos, girassóis, todos misturados, formando um belo e inesquecível cenário digno de filme, complementado pela linda fonte que ficava no meio do Jardim, na qual os enamorados costumavam jogar moedas e fazer pedidos, sem a certeza de que seriam realizados.

Quando a música morreu (DEGUSTAÇÃO)Onde as histórias ganham vida. Descobre agora