1 - Retornar

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Década de 30

Chovia e estava abafado também, o que a fazia suar enquanto andava apressada pela avenida. Não era incomum aquele clima, e Cecília já tinha se acostumado a ele depois de dez anos.

Atravessou a avenida e parou na padaria para comprar seus pães de canela. Estava com fome e sua boca encheu de água quando sentiu o cheiro familiar. Desde que tinha ido morar na Pensão da Clotilde, perto da padaria, havia se tornado frequentadora assídua e fã dos irresistíveis pães de canela, que também a lembravam de casa e de sua querida mãe. No inverno, ela sempre fazia fornadas especiais de pães de canela, junto com canecas de chocolate quente. Por mais que os anos tivessem passado, a saudade era sempre presente em cheiros, gostos e memórias que Cecília fazia questão de cultivar.

— Boa noite, Ceci. Como vai?

Era Caroline, atendente da padaria e amiga casual de Cecília.

— Bem e as coisas por aqui?

— O Bartolomeu fez uma torta especial de pêssego hoje, esgotou ainda cedo, ele já fez mais três e esse é o último pedaço. Quer?

— Hum... Acho que sim, além dos pães, claro.

— Quantos?

— Três.

— Todos de canela?

Cecília assentiu e esperou que Caroline lhe desse o pacote, agradeceu e foi pagar. Túlio, o rapaz do caixa, novamente a chamou para jantar, dessa vez prometendo que levaria pães de canela como sobremesa. Cecília gentilmente recusou pela centésima vez. Um dia ele pararia.

Saiu da padaria desejando que a chuva parasse um pouco, mas não foi o que aconteceu. Abriu o guarda-chuva e seguiu pela rua movimentada, tentando em vão evitar as poças que eram muitas por toda calçada. Finalmente chegou à pensão, fechando o guarda-chuva e entrando com rapidez.

Estava tudo quieto, o que não era comum. Geralmente, Clóvis, o estudante de Direito, José Bento, o estudante de medicina, e Lurdes, a aspirante a atriz, estariam na sala, discutindo sobre a nova peça de teatro em cartaz, da qual Lurdes garantia conhecer o diretor ou ator principal e que conseguiria ingressos, o que nunca acontecia, sempre por algum motivo absurdo que Lurdes inventava e jurava convencer a todos.

Cecília resolveu ir até a cozinha pegar prato e talher, depois subiria para o quarto e devoraria as delícias, em silêncio e sozinha. Era tudo que queria após um dia cheio, ensinando uma sala repleta de crianças de dez anos: silêncio e solidão.

Dona Clotilde estava na beira do fogão mexendo a panela de sopa, de costas para a entrada e não notou a chegada de Cecília.

— Boa noite, dona Clotilde.

A senhora se virou já sorrindo.

— Olá, menina! Como foi o dia?

— Cheio! Estou com uma turma a mais, porque a senhorita Ana está doente. Posso dizer que quase perdi a voz.

— Não diga isso, uma voz tão bela não pode ser perdida.

Cecília sorriu. Era comum aquele elogio à sua voz, o qual ela nunca levava realmente a sério. Amava cantar, mas nunca tinha pensado em si mesma como uma grande cantora ou uma voz excepcional, era apenas a sua paixão.

— A senhora sempre gentil.

— Imagina. Quer um pouco de sopa?

— Não, trouxe pães e uma torta, só preciso de prato, talheres e uma xícara de café. Vou subir e me recolher mais cedo, estou realmente exausta.

Quando a música morreu (DEGUSTAÇÃO)Onde as histórias ganham vida. Descobre agora