A profecia gatalítica

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Eram muitas pernas. "Oito, para ser exata", pensou Bela, a mais calculista. Ela e Alice correram para o único lugar seguro que sabiam existir em qualquer casa: a parte de baixo da cama.

Estavam acostumadas com outro lugar, outras pernas — para a altura das gatinhas, os referenciais eram sempre as pernas, nunca as pessoas por inteiro —, outros cheiros, e desde o dia em que Alice ouviu alguém falar sobre adoção conjunta e Bela explicou o que significavam as palavras engraçadas, as duas amigas ficaram assustadas com a possibilidade de pararem em uma casa cujos sachês fossem de baixa qualidade. 

Enquanto Bela ia averiguar o nível de gatabilidade (Gatabilidade: s. f. 1. Capacidade de uma família possuir gatos; 2. Condições de um local que sejam adequadas para felinos.) da nova casa, Alice continuou no mesmo lugar escuro, atenta à qualquer barulho que parecesse próximo demais. Seus pelos mesclados entre preto, laranja e branco, davam à ela uma aparência meiga, que enganava bem aos humanos que nada sabiam sobre seus superpoderes sensitivos. Um deles, inclusive, funcionava nesse exato momento, e a avisava que sua amiga Bela estava voltando de sua inspeção.  

— É inacreditável!

Bela, a gata de pelos pretos e brancos, se esforçou para entrar embaixo da cama, olhando para trás assim que conseguiu passar, como se desaprovasse o material do móvel. 

— Não achou os sachês? — Alice nunca viu muita graça em comida, preferia controlar seus poderes psíquicos, mas para Bela, sua fiel amiga, comer era essencial, o único modo de continuar com forças para criar seus tão necessários planos.

— Ah, isso eu achei faz tempo! — Bela lambia as patinhas, ainda com gosto de comida, enquanto se explicava. — O que é inacreditável é que a profecia se cumpriu!

Os brilhantes olhos de Alice saltaram em meio à escuridão.

— Você não pode estar falando sério!

— "Chegará o dia em que não haverá peixe, apenas ração... — Bela olhava para um ponto fixo qualquer, relembrando as palavras já tão bem decoradas. — ... E não haverá cama, mas haverá..."

— Ah, calma ai!  —  Interrompeu Alice.  — A gente tá embaixo de uma cama, Bela! 

— Mas você não entende! São oito pernas, eu contei! Os humanos são estranhos, enquanto temos quatro patas, eles andam em duas. Então, matematicamente, existem quatro pessoas nessa casa. Se existem quatro pessoas, deveriam existir quatro camas, mas eu só encontrei três!

— Tá, mas e daí?... "E não haverá cama, mas haverá pernas." — Relembrou Alice. — SANTO BIGODE, É A PROFECIA! FALTAM TRÊS CAMAS!

A profecia Gatalítica é um assunto desconhecido para todos os seres humanos. Cada felino, ao nascer, recebe do "Tigre que tudo vê" sua própria missão, além de poderes que os auxiliarão à cumpri-la.

Alice recebeu os dons da mente. Para nós, pobres seres de duas pernas, a gata aparenta apenas ser mais reservada, quando na verdade está sentindo todo o terceiro plano invisível aos nossos olhos, onde ela decifra e resolve eventuais problemas relacionados aos humanos que por ela são responsáveis. Bela, à primeira vista, pode parecer só muito faminta e mandona. Na realidade, o poder dado à gatinha foi o da inteligência sobre-humana, que a deixa com muita fome devido ao amplo gasto de energia. É quase como se ela fosse uma inteligência artificial peludinha que ronrona.  

A profecia nunca é dada de mãos beijadas. Os gatos possuem o contrato, mas nunca sabem quando terão que cumpri-lo e nem com quem. No entanto, os poderes de Alice e Bela as auxiliaram de forma perfeita, e agora as gatas sabem que dentro da nova casa, está o alvo. Diz a lenda que assim que os bichanos desvendam o enigma, são novamente chamados pelo "Tigre que tudo vê" por meio de um sonho, para que tudo fique tão claro quanto água recém colocada no potinho de ração. Por terem pouco tempo na Terra, as gatinhas ainda não sabiam se essa parte de fato acontecia, ou se era apenas uma falácia dos gatos mais velhos, já delirantes de tanto engolir bolas de pelo. Mas assim que entenderam o que acontecia, adormeceram sem nem se dar conta.  

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