PRÓLOGO

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Karin sempre insistiu em me perguntar o que é o amor. Confesso que nunca soube o que responder a ela. Hoje, ante a essa mesma questão, diria:

O amor é uma tempestade.

Unem-se às nuvens que depois caminham silenciosamente até seu destino, antes de transbordarem.

Muitos dizem que o temporal chega forte e se faz notar. Pois eu digo que não. Ele chega quieto. Se você está olhando para o céu, com os ouvidos apurados, vai notar as nuvens caminhando para a mesma direção até se unirem como uma só. Vai ouvir o barulho distante dos trovões em meio ao caos da cidade.

Para muitos, porém, esse temporal é de repente. Repara-se nele somente quando chega, perigando arrasar tudo sem se desculpar, porque não se nota mais o céu. Tão absortos em nossas telas e vidas artificiais, não somos capazes de ouvir a chuva. Confundimos o barulho dos trovões com o dos carros e os clarões dos raios com as luzes da cidade.

Mas, assim como o amor, nada abala a tempestade. Ela chega, cedo ou tarde, para despencar sobre a cabeça dos desavisados e também dos que esperavam por ela, há tanto tempo, que até se esqueceram. E chega devagar, até ser impossível ignorá-la. O céu escurece, os trovões se aproximam, o vento balança as árvores e carrega para longe as sacolas de supermercado.

Sem perguntar se é bem-vinda, a chuva cai. Quando é forte, alaga as ruas, derruba os postes, arranca os telhados.

Ela não avisa, não se desculpa. Chega e pronto. E toma para si o lugar que é dela. É da natureza da chuva cair. Não se pode culpar a tempestade pelo alagamento. Culpa-se a quem, então? Aos que não estavam preparados para recebê-la? A grande maioria não está. Apenas anseia por ela, mesmo não sendo capaz de suportar a sua força.

Mas, do mesmo jeito que veio, a tempestade se vai. Não importa a força com a qual chegou, nem o tempo que durou. Não interessa se regou plantas ou destruiu casas, porque, em algum momento, a tempestade acaba. As nuvens caem no chão e se desfazem. O céu se abre e, quando se nota, o temporal já se foi.

Para os pessimistas, deixando apenas destruição.

Para os apaixonados, o cheiro da terra molhada.


Thiago olhava as nuvens de chuva, tentando imaginar as gotas caindo sobre as peles, os carros, as ruas. Karin foi uma tempestade, sim. E ele se molhou nela como nunca antes havia se molhado. Ela foi uma chuva de verão: rápida, passageira e forte. Mas caiu, passou, deixou seu estrago e, sem dizer uma palavra, foi embora.

Foi?

Então, por que ele ainda a sentia cair?

Sempre estive aquiOnde as histórias ganham vida. Descobre agora