Sentimentos Afiados

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Aquele era um dia gelado de março do ano de 1996. Nas ruas não se via uma alma viva, o som das folhas secas ao sabor do vento perturbava o estranho silêncio das calçadas vazias. Todos os seres vivos estavam escondidos em casa talvez se esquentando para fugir do frio da noite.

Eu andava a passos lentos por uma calçada qualquer que circundava um parque mal iluminado. Olhos fixos à frente, mas totalmente vazios. Estava preso em pensamentos que só intensificavam minha conturbação mental. As vozes na cabeça gritavam: Até que ponto perdurará nossas existências? A minha e a sua. Levará o prazo de decomposição do corpo? Até a alma ser condenada? Até as ideias se apagarem?

Todas essas perguntas sem respostas consumiam infindáveis momentos de minha vida. Elas permaneciam no poço da mente, se repetindo como um gravador estragado. Ao tardar da noite, na minha recorrente insônia, os fantasmas digeriam meu coração em uma sinfonia destoante: Você é sozinho, não tem amigos. Ninguém se importa. Seus pais não te amam. Você não vale nada. Você não é nada.

Em dados momentos, eu apagava e era assombrado por pesadelos que pareciam reais e não meros frutos aleatórios do meu subconsciente. Separar o que era real e o que eram apenas sonhos se tornou muito difícil. Mesmo assim, aprendi de alguma forma a pressenti-los, como um predador à espreita, mas infelizmente eu me tornei a presa desses estranhos jogos mentais.

Ao completar 18 anos, mais um aniversário de morte, eu me rastejava sem destino, sem casa, família ou amigos, sem conexões. Exceto por Dr. Alex, a quem recorria em busca de alguma resposta para meus devaneios. Merda! quando isso pararia? Eu deveria morrer?!

Não via mais por onde andava. Minha cabeça latejava fazendo meus olhos tremerem, meu peito chiava como um rádio velho. Eu dava mais um trago no cigarro, dominado pela ansiedade. Sabia que encher os pulmões com a fumaça tóxica não evitaria o que estava por vir, os pesadelos.

Mais à frente no trajeto, onde deveria ser a extensão da calçada levando até o lago, eu vi incontáveis corpos no chão. Eram meus corpos! Cada um correspondia aos momentos que eu tinha me eliminado* no frenesi da minha personalidade autodestrutiva.

Os cadáveres estavam mergulhados em líquido vermelho escuro e espesso. Eles deslizavam, inertes e amolecidos, num aglomerado harmonioso vindo em minha direção. Prontos para reintegrar o corpo de seu dono. Ao esbarrarem em meus pés, o cheiro metálico de sangue invadiu meus sentidos despertando a perpetua tortura em me entregar ao inevitável.

O líquido vermelho me guiou através da linha da calçada do parque. Os lampiões piscaram até apagarem, minhas pálpebras pesaram até fecharem me levando para o centro de uma fria escuridão. Tudo desapareceu tão rápido quanto veio, num piscar de olhos, no período de um suspiro e eu estava de volta ao mundo que julgava ser real.

A cabeça ainda latejava passei as mãos nos olhos. Aos poucos, minha visão melhorou. Foi então que me vi em outro local do parque, um ambiente escuro e sujo. Os bancos estavam quebrados e com um aspecto bolorento, a maioria dos lampiões estava apagada o que tornava aquela paisagem ainda mais macabra.

Minha garganta seca gritava por um gole d'água, quase sorri ao ver uma velha fonte na minha frente; uma escultura de anjo segurava um vaso por onde vertia água. O rosto da estátua devia ter sido bonito em outros tempos, mas estava desfigurado como se alguém tivesse destruído a pancadas e decorado com camadas lodosas. E aquela água que a princípio percebi tão cristalina, ao me aproximar notei que estava lamacenta e malcheirosa.

O céu estava sem estrelas e à medida que caminhava percebi que a escuridão aumentava. Isso me assustou, a apreensão de quem está sendo observado tomava conta de mim. Olhei para todos os lados e não via nada, decidi ir embora dali, corri na direção contrária ansiando em sair do parque.

O clima ficou tão tenso que eu poderia quase apalpá-lo. Eu me sentia observado por aquilo que mais temia, o cheiro podre de morte contaminava o ar. O mundo que acreditava ser real sempre fora uma farsa. Aquela sensação de dissociação estava cada vez mais forte.

Pelos cantos dos olhos eu percebi movimentos rápidos por todos os cantos. Vários corvos pousaram em galhos de árvores mortas, eles crocitavam alto como se pedissem ajuda, mas eram gritos de alerta. Avisos que me diziam que o grande sofrimento viria como sempre vinha para todos que caminhavam ao encontro da verdade.

Tentei seguir em frente e ignorar, mas para quem não tem destino a morte vêm cedo. O frio no corpo não era por causa do inverno, aquilo era o sangramento da alma humana. Tudo sempre foi igual mesmo quando parecia novo, não havia superação ou felicidade somente dor.

Quando dei por mim já era tarde demais, as carcaças das árvores abrigavam milhares de corvos, o parque se tornou lodoso como um cemitério abandonado. Eles ergueram as asas como as sombras que me perseguiam nos sonhos.

Mal ergui os braços para me proteger e os bicos afiados me cobriram como navalhas, estraçalhando minha carne. O sangue voou para todos os lados. Como eu poderia me defender de meus próprios sentimentos?

Correr era inútil, minhas pernas estavam em frangalhos. Próximo do momento da única verdade, meus ouvidos perceberam o arranhar da pá do coveiro, as navalhas dos corvos terminaram seu violento trabalho. Só existiam gritos e tudo era manchado por sangue. Seis passos próximos à morte, o sangue derramava entre meus lábios como uma fonte, não havia mais dor e nem tristeza. Jogado ali, eu finalmente iria dormir.

Ao amanhecer:

A senhora Annabette andava pelo parque com seu cachorro, quando avistou alguns corvos se alimentando de algo. Achou aquela imagem peculiar e, então, se aproximou para checar o que estava no chão. O que ela não esperava era encontrar o corpo mutilado de um jovem morto.

"Oh! Coitado do pobre garoto, fugiu do único lugar que poderia estar seguro e terminou aqui banhado em suas próprias vísceras! Me pergunto quem faria algo tão terrível.


Contos NefastosWhere stories live. Discover now