36. Lago vermelho (parte 2)

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Desceu do táxi no fim da estrada — de mochila nas costas e arma carregada escondida por um cruzar de braços. Meio-dia. Elliot fora avistado há pouco tempo. Seria uma vantagem, levando em conta os olhos de harmínion sensíveis à luz.

Adentrou a floresta. Pinheiros dominavam o cenário. A prioridade era encontrar Sara. Segundo o que aprendeu com o Dr. Crow, harmínions adultos não eram vistos há décadas, no entanto ele temia o quão disposta estaria Sara em procurar Elliot. Se um filhote era capaz de tanta violência, não ousava nem imaginar a ferocidade de um adulto.

De onde estava, era possível avistar os arredores sem dificuldade devido ao espaço entre as árvores. A última vez em que teve um contato tão próximo da natureza foi quando acampou em uma excursão da escola, na época da adolescência, com todos os alunos da classe e vários professores. Com a lembrança de um grupo tão grande, sentiu-se ainda mais isolado enquanto caminhava para cada vez mais longe da sociedade.

Aquela arma era mais pesada do que parecia. Não queria que Sara a avistasse, contudo abdicar sua posse significava ficar vulnerável. Uma das coisas que jamais esqueceria era a perseguição após a convenção. Elliot era rápido. E seria capaz de atacá-lo antes que pudesse abrir a mochila.

Apreensivo demais para chamar pela garota fujona, ele continuou até que as árvores impedissem o sol de iluminar seu caminho. Foi quando ouviu algo mais do que um ocasional cantar de pássaros. Vozes! Altas e descuidadas. Pareciam gritos de consumidores decepcionados com seus produtos recém-adquiridos.

Desembestou na direção do som com um único pensamento em mente: Sara. Saltou arbustos e sentiu os galhinhos arranharem as pernas. Descruzara os braços, porém mantivera a arma perto do corpo.

Conseguiu ver pessoas à frente e não parou até alcançá-las. A cada arquejo, uma pergunta enfurecida eclodia em seu cérebro como uma confirmação do que Teris dissera certa vez: eles mentiram.

— O que estão fazendo aqui? — gritou o mais forte que seu fôlego permitiu, resultando em uma voz rouca e com volume inferior ao normal.

Nem teria sido necessário dizer qualquer coisa, pois todos já olhavam para ele estupefatos. A pequena reunião incluía Low, Mori, Sara e Isadora, que quase formavam, nessa ordem específica, um semicírculo da esquerda para a direita de Daniel.

— Isso é o que eu quero saber também — disse Isadora, com um escárnio contido no canto dos lábios.

— Você! — Daniel quase rugiu, ainda lutando contra a própria respiração. Observou Sara por poucos instantes, suficientes para constatar a aflição da garota que tinha os olhos marejados, e se voltou para a moça: — Como permitiu que a Sara viesse até aqui?

— Quem sou eu para proibi-la de visitar os pais?

— Eles nem estão aqui — Sara resmungou, abaixando o olhar para seus tênis sujos de terra.

— Quando chegou à cidade? — Low questionou, inclinando a cabeça enquanto examinava a mão de Daniel com desconfiança. — E o que pretende fazer com isso? Aliás, como o conseguiu? — Não deveria ter se precipitado em achar que Teris fosse a única "aprendiz" de Raymond.

Daniel se esquecera da arma em sua posse. Apontou o objeto para baixo ao reparar que estava em uma posição ofensiva, ainda que a mira estivesse na direção da grande lacuna entre Sara e Mori.

— É, Daniel, como o conseguiu? — Isadora inquiriu, cruzando os braços para demonstrar seriedade enquanto o brilho dos olhos transparecia uma alegria irônica.

Mori percebeu as pupilas mortíferas de Low voltando-se para a garota desconhecida, entretanto elas logo retornaram para Daniel.

— Raymond? — Low se viu obrigado a perguntar diante da falta de palavras do outro.

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