Capítulo 33 - Eldorado

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- Parem com isso, agora! – uma voz gutural disse lá de dentro dos portões, ao emergir, um homem caminhou em nossa direção. Ele era baixo, de pele que parecia bem queimada pelo Sol. Se vestia como os outros, com roupas que lembravam as indígenas, mas as suas eram douradas. Trazia uma lança em mãos também e encarou minha posição de ataque com um óbvio desdenho.

- Por favor, não vai querer fazer isso. – disse parecendo cansado, ajeitando o cabeço curto.

- Ah, eu vou sim. – minha raiva e desespero estavam nublando qualquer raciocínio – É só tentar dar mais um passo.

Eu sabia que na minha recente situação não aguentaria um golpe daquele homem, mas estava tão desesperada com o destino dos outros que precisava simplesmente tentar de tudo. O homem estreitou os olhos.

- Contando comigo, são onze soldados muito bem armados, contra... uma garota que mal se aguenta de pé.

- Seus números não me impressionam. Não me subestime, pode ficar surpreso no final. – rebati.

Ele não fez questão de esconder um sorriso irônico. Um alívio me invadiu quando finalmente ele abaixou a lança. Os homens ao redor repetiram o gesto, enquanto eu hesitava em fazer o mesmo. No entanto, um suspiro estranho de Julie, me fez largar tudo e ir até ela. Muito sangue ensopava o chão ao seu redor, ela iria morrer se continuasse assim. Pressionei o buraco em sua barriga, tentando manter a calma.

- Por favor, eu não sei quem você é, mas precisamos de ajuda. – implorei, olhando brevemente o homem que aparecera – Precisamos de Hal, foi Állya quem nos enviou. - a cena deveria ser deprimente já que minhas lágrimas não paravam de cair.

O homem se ajoelhou em minha frente e seus olhos seguiram para os símbolos em meu pulso e continuou até o ferimento de Julie que eu pressionava.

- Então é você? – questionou sem me olhar.

- Eu sei, você não está impressionado e não sou o que você esperava, já ouvi muito isso. Agora pode nos ajudar? – ele ergueu os olhos escuros até encarar os meus – Por favor! Elas vão morrer a qualquer instante.

O homem não parecia abalado com o fato de termos duas pessoas quase mortas bem na nossa frente – tentava me convencer de que ainda havia chances para Giovanna - muito menos com meu desespero ou com o fato de citar os deuses. Ergueu-se do chão usando a lança como apoio e estalou os dedos, o que fez os homens de pedra simplesmente sumirem.

- Soldados! Levem-nos para a cidade! – exigiu.

Os homens avançaram sobre Giovanna e os meninos correram para ajudar agora que tinham as mãos livres. Eles me encaram como se perguntassem o que eu achava disso, apenas consegui assentir, logo voltei-me para o que parecia ser um novo guardião, ele me encarava de uma forma incômoda.

- Sigam-nos! – disse apenas.

Os homens vieram rapidamente e ergueram Julie. Me levantei do chão no mesmo instante, sentindo tudo doer, no entanto isso podia ficar em segundo plano. Recolhi minha adaga e coloquei de volta no cós da calça. Novamente o olhar do homem seguiu meus movimentos.

- Quem é você? – perguntei, suspeitando dele.

- Sou o guardião dos portões das terras de ouro, Ollin. Mas agora aconselho que siga seus companheiros, não temos muito tempo para apresentações. – respondeu com uma expressão fechada. Ótimo! Eu já não gostava dele. Queria questionar um milhão de coisas naquele momento, principalmente seu nome diferente, mas me calei quando percebi que, de fato, não era o momento.

Corri até os outros que já passavam pelos portões. Pingos grossos de água caíram sobre mim enquanto o atravessava e percebi que apesar de ser meio invisível, a cachoeira como plano de fundo era bem real. Os portões literalmente emergiam dela. Ollin veio logo atrás de mim, assim que passou, a entrada começou a fechar. Consegui ouvir ao longe o som de água caindo como uma torrente grandiosa, selando qualquer saída. Suspeitava de que estivessem voltando para dentro da cachoeira.

O Mistério de Allíshya - Perdida | Livro 03Leia esta história GRATUITAMENTE!