Capítulo 33 - Eldorado

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Hailey

- Não... – foi a única coisa que consegui pronunciar antes de me jogar ao lado de Julie. Ouvi as vozes de Christopher e Benjamin, mas elas não faziam sentido nenhum em meio àquela minha confusão mental. – Não, você também não.

Observei ao redor um conjunto de seis lanças fincadas no chão, todas que eram destinadas a mim se Julie não tivesse me empurrado. Acontece que ela não conseguira sair da frente a tempo e agora trazia uma delas bem no centro do abdômen. Uma dor aguda na minha perna ganhou minha atenção por apenas um segundo, havia um corte feio abaixo do joelho e logo encontrei outro no meu braço. As lanças me acertaram de raspão. Os olhos quase fechados de Julie seguiram os meus até os ferimentos.

- Você se machucou, precisa sair daqui. – sua voz fraca me respondeu – Precisa se salvar.

- Me salvar? Está dizendo isso para mim?! – ela sorriu de lado, fracamente. – Olhe o seu estado!

Eu estava com todos os meus pensamentos paralisados novamente, segurei seu abdômen, o que espalhou ainda mais sangue e manchou minhas mãos. Ela franziu o rosto com dor, enquanto eu me desesperava.

- Julie, o que foi que você fez?! – exclamei, sentindo dessa vez meus olhos serem tomados pelas lágrimas. Eu não conseguia mais segurar. – Qual o seu problema? Por que me empurrou? Por que? – ela começou a fechar seus olhos – Não, você não vai morrer assim! Não vou perder Giovanna e você desse jeito! Não pode me odiar tanto a ponto de fazer isso comigo!

O sangue fluía em cascatas, ensopando minha roupa e misturando-se com o meu. Puxei a lança de seu corpo no impulso e joguei-a no chão, o que fez Julie emitir um som estranho e doloroso. Não sabia se tinha sido uma boa ideia, mas agora não dava para voltar atrás. Os outros ainda lutavam, enquanto eu encontrava e pressionava o ferimento de Julie. Encarei Giovanna brevemente, vê-la imóvel fez minhas lágrimas caírem de vez, principalmente por não poder me aproximar ou mesmo ter algo para salvá-la. Eu queria gritar, mas isso não ajudaria em nada. Não podia acreditar que minha amiga estava morta e que minha... antiga inimiga - ou o que quer que Julie fosse -, tinha acabado de salvar minha vida e estava à beira da morte por causa disso. Era muito para que eu registrasse sem enlouquecer.

- Não vamos conseguir por muito tempo! Corra para dentro dos portões, Hay! – ouvi Christopher pedir – Nós vamos ajudar as meninas e alcançaremos você. Vá!

- Christopher, na sua esquerda! – Benjamin gritou e a luta continuou.

- Julie, você está me ouvindo? – solucei, ignorando as ordens de Christopher. Ela abriu minimamente os olhos. – Você vai ficar bem. – Um sorrisinho irônico foi minha resposta. – Por que você fez isso?

- Minha visão... – ela murmurou e minha mente acendeu imediatamente com as lembranças de seu ataque na casa de Caira, no dia em que tivemos aquelas visões juntas.

- Você... você viu... – não consegui completar.

Um brilho pelo canto dos meus olhos chamou minha atenção. Além da luz que emanava da abertura dos portões, outra iluminava meu braço, deixando à mostra os símbolos dos deuses. Um conjunto de homens saiu apressado pelo vão das grandes portas, diferentes dos primeiros, esses não eram de pedra, apesar de usarem vestimentas que se assemelhavam as da tribo de Iara. Mais atrás notei, onde seria o penhasco, traços de algo que me lembrava uma imensa cachoeira ganhando vida.

Pus a mão de Julie sobre o próprio ferimento. Me ergui no impulso e corri para pegar minha adaga. Apontei-a em direção aos homens, parando entre ela e Giovanna para protegê-las. Os homens revidaram erguendo suas lanças.

O Mistério de Allíshya - Perdida | Livro 03Leia esta história GRATUITAMENTE!