35. Aqua regia

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Criaria algo mais forte. O próximo encontro seria a última chance de reparar sua falha; não a desperdiçaria.

Ela se apressou a vestir os pegadores em formato de cabeça de ursinho. Ao abrir o forno, foi agraciada pelo aroma maravilhoso de massa recém-assada. Retirou a bandeja com os biscoitos — também em formato de ursinhos — e a depositou sobre a pia.

— Ficaram magníficos! — Anabela parabenizou a garota apertando seus ombros de leve. — Não sei de onde tirou a ideia de que não sabe cozinhar; você aprende muito rápido!

Sara fingiu não sentir o rubor morno contagiar sua face e procurou focar na tarefa de despejar os biscoitos da bandeja para um prato, depois removeu os pegadores.

— Obrigada.

Anabela se sentou à mesa, deixando uma de suas pernas dobrada debaixo do corpo como uma almofada, e observou Sara colocar o prato na superfície polida do móvel.

— Nunca pediu ao Daniel para te ensinar? — Indagou assim que a garota se juntou à ela. — Quero dizer, vocês moraram juntos por alguns anos e essa é uma atividade que ele também adora.

Sara fitou o prato enquanto era atingida por uma ou outra memória. Aqueles ursinhos não representavam nenhum desafio a Daniel, que já preparara doces muito mais elaborados para comemorar aniversários dos integrantes do grupo do Dr. Crow.

— Eu pedi pra ele no começo do projeto, quando o Elliot tava aprendendo a falar. — Pegou um dos biscoitos e o virou em um sentido e depois em outro, como se analisasse uma evidência. Cada ursinho tinha uma expressão diferente desenhada e ela escolhera um com um risco singelo como sorriso. — Então ele me ensinou algumas coisas. Tinha até um horário do dia só pra aula de culinária, mesmo depois que ele precisou se dedicar mais ao projeto. — Parou de mexer o ursinho e observou com atenção o focinho desenhado. — Não tenho irmãos, mas acho que ele me tratava como uma irmãzinha, então considero ele como um irmão mais velho. Quando ele e a Teris começaram a namorar, ele também tava trabalhando no sonífero do Elliot. Achei melhor parar com as aulas porque não queria ficar atrapalhando a vida dele.

— Ele é bonzinho — Anabela comentou. — Acho que não te veria como um empecilho.

— Não mesmo. — Sara sorriu ao concordar, direcionando as pupilas para a mulher. — Até precisei convencê-lo de que queria aprender sozinha... e foi aí que nasceram minhas fantásticas criações! — Ergueu o braço, levando o biscoito para cima como um troféu para, em seguida, abaixá-lo e devorar a parte superior do urso com um ataque rápido. Praticar com Anabela estava funcionando; diria que o urso estava alguns níveis acima de comestível, aproximando-se cada vez mais da categoria "delicioso".

Anabela pretendia elogiar a evolução das habilidades culinárias de Sara, contudo perdeu o pensamento antes de soltar a primeira sentença ao ouvir a porta da sala fechando com um estrondo incomum. Daniel e Isadora não voltariam até o fim da tarde... Poderia ser algum familiar fazendo uma visita surpresa, entretanto mesmo seus pais não entrariam na casa de forma tão descortês.

Prestes a se levantar e averiguar a identidade do invasor, ela se deteve quando Daniel apareceu na entrada da cozinha. Apesar do susto, Anabela o cumprimentou com um sorriso, que durou os poucos segundos que levaram até reparar que a expressão séria dele permanecia inflexível.

— O que aconteceu? — Ela arrastou a cadeira ao ficar em pé.

Daniel passou direto pela mulher, em direção à mesa, porém percebeu sua indelicadeza e girou o corpo para realizar um contato visual decente.

— Preciso falar com a Sara, por favor. — De forma também decente, vocalizou as palavras que a enxotariam.

— Ah... Tudo bem. — Anabela puxou o cabelo para trás da orelha, incerta por vê-lo tão frígido. — Tenho que podar algumas plantas.

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