17. Águia

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ANA CAROLINA

Há mais de um ano atrás, perto do aniversário de quinze anos dos filhos, Júlia e Matilda Becchio, a avó paterna das crianças, foram visitá-los em casa. Mesmo antes da morte de Leandro, a dona Matilda não gostava de Ana Carolina e muito menos da ideia de ter três netos. Fazia questão de dizer para o mundo todo ouvir que Ana havia destruído o futuro brilhante do seu filho.

Leandro e Ana não ligavam. Estavam desesperados o suficiente tendo que lidar com uma gravidez inesperada e múltipla, e depois só estavam ocupados demais sendo pais babões.

Matilda nunca se sentiu como uma avó e nunca fez questão de ter contato com os netos. Leandro tentava reconciliar a família, mas era em vão, a mãe era irredutível. A mulher não ia ao aniversário das crianças, não ia nas festas de aniversário do Leandro, não aparecia no natal e muito menos no Ano Novo. Ela simplesmente se absteve de tudo o que era referente a nova vida do filho.

Até o dia em que Leandro se foi.

Ana nunca esqueceria da imagem da mãe que não saía de forma alguma do lado do caixão do filho e tão pouco deixava a nora se aproximar.

"Leandro era meu. Você tirou ele de mim".

Essas eram as palavras dela sobre o filho morto. Ana estava tão exausta psicologicamente que simplesmente não conseguia mais brigar ou discutir. Matilda quis levar todos os pertences que estavam com Leandro no momento da sua morte? Não quis deixar que Ana se aproximasse do caixão do amor da vida dela? Ok. Ana não estava ligando. Nada daquilo traria o seu amor de volta. Naquele maldito dia ela estava exausta de brigas. Leandro não merecia vexame no dia em partiu.

Enquanto Matilda era um poço de fúria, Júlia ainda participava minimamente da vida dos sobrinhos, mas era muitas vezes impedida pela mãe, afinal, Júlia era só uma criança na época.

Matilda ficou anos sem ver os netos e quando apareceu, às vésperas do aniversário de 15 anos deles, ela fez questão de surtar ali, na sala de estar onde agora Ana encarava Helena e Lívia.

Não sabia o que pensar sobre a visita de Júlia, mas isso fez ela entender a debandada que havia acontecido na casa.

— Lívia e Helena, vocês estão de castigo — falou sem muita energia. — Helena, é da escola pra casa, da casa pra escola.

Ela notou que a menina suspirou e encolheu os ombros, mas as suas grandes preocupações no momento eram Lívia e Benito.

— Sei que teve boa intenção em não me avisar que iria sair pra fazer o trabalho porque não queria me atrapalhar, mas eu liguei duas vezes no seu celular e nada de você atender. Eu morri de medo e preocupação. O castigo é válido — explicou encarando os olhos azuis da filha. — Pode ir que agora eu vou conversar com a Lívia.

Observou Helena caminhar em direção ao corredor que levava ao quarto e Ana suspirou se aproximando de Lívia. Passou as mãos pelos fios de cabelo da menina e encostou levemente no pescoço da filha.

— Quem é o responsável pela marca no seu pescoço? — perguntou calma e notou mais uma vez Lívia negar com a cabeça. — Eu não vou te proibir de namorar, não sou arcaica, com a sua idade eu já namorava seu pai, mas Lívia, eu também fiquei grávida logo em seguida. Eu quero que você fale comigo, por favor.

— Eu sou virgem — Lívia falou baixo. — Eu não sou idiota, não vou ficar grávida.

Ana respirou fundo e cruzou os braços. Sabia que o ataque velado era raiva pela proibição ao vôlei.

— Você pode ficar com raiva, me xingar, não olhar na minha cara, mas você ainda é minha filha. Vai ser minha filha pra sempre. Eu só quero saber quem é o rapaz — Ana segurou os ombros dela e encarou os olhos da garota. — Lívia, no mundo de hoje, a gente não pode vacilar. Nós somos mulheres, você está cansada de ver as coisas horríveis que acontecem com nós porque acabamos nos envolvendo com homens medíocres e machistas. Eu sinto medo por mim, mas eu sinto um medo muito maior por você e pela sua irmã. Por favor, só me diga quem é o rapaz.

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