16. Benito vs Tia Júlia

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BENITO

Benito entrou no quarto com o coração disparado. Iria surtar. Ele sentia que estava prestes a surtar. Era uma bomba-relógio prestes a explodir. Ouviu o barulho da tia fechando a porta e tentou controlar a respiração.

— Bê, nós não podemos ficar nessa situação. Nós somos família — foi a primeira coisa que a tia falou enquanto sentava-se na ponta da cama que era da Helena. — A gente precisa se entender.

Agora a gente é família? — perguntou irritado andando de um lado para o outro no quarto. — Que eu me lembre da última vez eu era... — sentiu a bile subindo por sua garganta. Deus, iria vomitar a qualquer momento. — Eu era.. era o...

Não conseguia completar aquela frase sem vomitar. Seu coração estava disparado, as mãos suando e ele sentia-se fervendo por dentro. Queria colocar tudo para fora. Tudo. Queria explodir.

— Benito, você sabe que eu não penso como ela — tia Júlia disse calma.

— Não, eu não sei! — falou alto. — Sabe por que eu não sei? Porquê da última vez você foi embora com ela e nunca mais apareceu na nossa frente. Não até o dia de hoje!

— Eu errei, ok? Não estou me eximindo da culpa — Júlia levantou e respirou fundo enquanto encarava os olhos do sobrinho. — Ela está errada, mas tente entendê-la... ela perdeu o filho.

— E minha mãe perdeu o amor da vida dela. Eu perdi o meu pai — Benito retrucou frio. — Todo mundo saiu perdendo, mas nem por isso a gente trata ela como lixo. Em momento algum nós fomos maldosos ou cruéis. Ela foi. Ela sim foi.

— Benito, eu sei que no fundo ela sabe que está errada, eu só peço paciência.

— Júlia, ela veio até a minha casa para acusar a minha mãe de ter destruído a vida do meu pai e de quebra ainda... ainda... ela ainda me... — o menino já sentia as lágrimas deixando a visão turva. — Ela ainda me acusou de ser o culpado pela morte do meu pai.

Havia conseguido verbalizar sua grande culpa. A tragédia que permeava a história da família era sua culpa. Não tinha como não se sentir minimamente responsável.

Todos diziam que a avó Matilda estava errada, mas todos esconderam dele um detalhe do que havia acontecido no dia da morte do pai.

Se ele não era minimamente culpado, por que esconder um detalhe daquele dia horroroso?

— Bê... isso foi ela falando da boca pra fora — Júlia tentou argumentar novamente. — Ela está sempre furiosa com o mundo, aquele dia ela só explodiu. Ainda dói muito nela. É uma dor pra vida inteira.

— E você acha que não dói em mim? Que não dói na minha mãe? Que não dói nas minhas irmãs?

O rosto do adolescente já estava vermelho e as lágrimas rolavam rapidamente. Ele só queria falar tudo. Colocar tudo para fora.

— Minha mãe não fica com alguém há oito anos. Lívia chora escondida no final de cada aniversário nosso. Helena chora no ano novo. Sempre. Sem falhas. Minha família é toda fodida emocionalmente porque perdemos alguém muito especial, e mesmo assim, Helena é gentil com todos, Lívia tem um senso de justiça impecável e minha mãe encontra forças todo dia para continuar criando seus três filhos sozinha — Benito apontava o dedo para a tia com determinação. — Então não venha fazer o papel de advogada do diabo dentro da minha casa. Não pra mim. Não pra nós. Sofrimento todos nós temos, se a megera da sua mãe ficou amarga por causa disso não é culpa nossa. Nós tentamos nos unir e ela rechaçou cada um de nós.

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