1. Viagem ao interior

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O carro costumava ir cheio nas nossas viagens de férias. O Rubens ia dirigindo, os meninos iam atrás na maior falazarda, o cachorro no meio para completar a bagunça e eu no banco de carona tentando controlar os ânimos e garantir que todo mundo bebesse água e passasse protetor solar e não se esquecessem de nada, porque se não fosse eu nada funcionava.

Quando a gente foi pra Fortaleza de carro, a viagem mais longa, o Marcelo tinha o quê? Uns doze anos? O Luquinha tinha acabado de entrar na primeira série, então tinha uns seis. Era impossível aquele menino. O Marcelo era mais centrado, estudioso. Quase não deu trabalho.

Veja como as coisas mudaram. Agora vou eu sozinha, dirigindo o carro, e nem pra praia vou. Sobrou nem cachorro para ir comigo. Até isso o Rubens levou no divórcio. "O Dodi é mais apegado a mim, Margarete, você sabe. Além do mais você vai ficar com o Luquinha" sim, foi o que ele me disse. Acredita? Fica com o menino e me dá o cachorro. Meu Deus, foi com esse imbecil que eu fiquei casada vinte e cinco anos.

Mas Luquinha ficou pouco comigo. Fez um intercâmbio no exterior no Ensino Médio, voltou e foi morar com o pai. Com o pai e com a nova mulher dele. Agora tá tentando vestibular pra Federal, estudando muito e por isso vem me visitar menos. Ah, o Marcelo já formou. Homem feito. Já trabalha numa firma daqueles negócio lá que ele faz, de programação, coisa de informática. Área dele dá dinheiro hoje em dia né. Tá morando em São Paulo, casou e tudo. Esse eu vejo menos ainda, mas fico feliz de saber que o menino tá bem.

Eu meio que acostumei com o silêncio em casa agora. Janto sozinha numa mesa que antes vivia cheia de gente e com a peste do cachorro atazanando e chorando pra gente jogar algum pedaço de comida pra ele. Mas as coisas mudam, né?

Da última vez que o Luquinha veio me visitar, foi o Rubens que levou ele. Ai que raiva. Ficou falando das viagens que ele fez com a mulher dele, tentando puxar assunto e esfregar na minha cara como ele tá bem e eu, bem, eu não tinha nem nada pra contar porque minha vida se resumia a ir pro escritório e dali pra casa assistir novela.

Foi quando me peguei pensando em como seria dali pra frente. Mais nova eu não tinha como ficar. Nem meus meninos iam voltar a ser meninos para precisarem de mim. Outro homem, aquilo só de pensar já me dava preguiça. Envelhecer sozinha?

Começou a me apavorar a ideia de estar sozinha em casa, engasgar com um pedaço de bife e morrer sufocada simplesmente porque não ia ter ninguém pra bater nas minhas costas. Ou escorregar no banheiro, quebrar a bacia e ficar lá estatelada no chão porque eu não ia conseguir alcançar o telefone pra ligar pra emergência. Capaz que só fossem se dar conta que morri quando eu começasse a feder e a incomodar os vizinhos.

Daí lembrei da minha mãe, já velhinha e meio surda, que fui incapaz de trazer pra casa porque eu não podia cuidar dela com trabalho e dois meninos pra cuidar. Dei mil desculpas, disse que eu estava sem dinheiro e trabalhando muito, que ali não seria bom pra ela. Disse que era melhor ela ir pra fazenda da Margô, minha meia-irmã que mora no interior, porque lá ela ia poder descansar e a Margô ia poder cuidar dela e larguei minha mãe pra outra como se fosse um problema. Nem um asilo bom eu fui capaz de pagar, que filha horrível eu sou. Visitei ela umas três vezes durante todos esses anos porque quando eu tinha algumas férias eu preferia ir pra praia do que ver minha própria mãe!

Tive uma crise de consciência das brabas. Chorei, chorei, chorei. Se eu morresse sozinha talvez eu merecesse. Sufocar engasgada com um bife seria um castigo justo por eu ter abandonado minha mãezinha.

Então resolvi pegar o carro nessas férias e ir visita-la no sítio. Dessa vez eu teria todo o tempo só pra ela. É para o interior de Minas que vou agora, o dia está lindo, a estrada boa, mas meu Deus como eu sinto falta de conversar com alguém no carro.

***

Sítio das Margaridas. Chego na entrada e já me atrapalho toda para abrir a porteira. Afundo meu pé direito na terra úmida e a barra da minha calça fica toda barrenta, ê delícia.

O caseiro vê e vem me ajudar a abrir a porteira e a passar o carro. De longe ouço Margô gritar:

"É Margarete, mãe!" Duvido que minha mãe tenha ouvido, coitada, mas já fico feliz com a recepção.

Ela limpa a mão no avental antes de me abraçar bem forte e me dá dois tapas nas costas. Pergunta das bagagens mas digo que depois eu pego, tudo bem, 'xô só ver a mãe primeiro.

"Dona Margarida! Que saudades!" grito bem alto para ela me escutar, mas só de me ver a boquinha murcha dela se abre num sorrisão e ela vem arrastando os pés devagarinho até mim no que pra ela é uma corrida entusiasmada.

"Tá gordona, forte, sô!" ela grita com a voz fininha dela e eu me lembro que pra ela estar gorda é algo bom, sinal de estar bem alimentada. Acho que vou gostar aqui.

"A gente já tava passando o café! Vamo trazer as mala procê se acomodar e nós poder prosear logo!" Margô está empolgadíssima, as bochechas bem rosadas.

Malas pra dentro, ela me apresenta a casa, mesmo não tendo mudado muito desde a última vez que as visitei. Sentamos à mesa, uma comidaria sem fim. Café, bolo de milho, biscoito de polvilho, queijo minas fresquinho feito lá mesmo, pão de queijo. Vou gostar daqui sim.

Conversamos, conto como foi o divórcio (longa história), falo do Luquinha, do Marcelo, das novidades que a essa altura nem são tão mais novas assim, mas tá valendo. Elas contam os causos da fazenda, Margô fala da saúde da mamãe, que até parece muito bem apesar da surdez estar evoluindo.

Ali levam uma vida boa, bem tranquila. Talvez eu deva vir pra cá quando me aposentar. Ficar com minha mãe em seus últimos anos, porque ela já tá nos noventa e não deve ter muito mais tempo, né? Além disso, Margô tem mão firme pra dar tapa nas costas, engasgar com bife é que eu não ia.

***

Margô sai com o caseiro de caminhonete para fazer compras na cidade próxima e fico com a minha mãe no quintal, ela na cadeira de balanço bordando um paninho de prato e eu lendo um livro que ganhei de aniversário de uma colega de trabalho. Não sei por que ela achou que eu iria gostar, é um desses bestsellers protagonizados por adolescentes e eu tô no primeiro capítulo já pensando como é engraçado acharem que uma pessoa com dezesseis anos possa ter tantos dramas e conflitos se só tem DEZESSEIS anos, caramba. Se fosse filha minha eu mandava ir lavar uma louça, aí eu queria ver se ia ter tempo de caçar confusão pra se meter.

Tudo muito calmo, passarinhos cantando, vacas mugindo ao longe, o vento passando pelo campo e fazendo as árvores balançarem e vez ou outra sinto em meu rosto uma generosa lufada de ar com um agradável cheirinho de estrume.

De repente, um estalo tão alto que acho que um avião caiu no sítio e não acredito que minha mãe não tenha ouvido. Continua a bordar tranquilamente.

Levanto e tento entender o que foi quando vejo uma luz no horizonte e o mato rodopiando ao redor e minha Nossa Senhora o que é isso?

De dentro dessa janela de luz surge uma silhueta escura e ela se mexe de uma forma que nem de longe lembra algo humano, mas também não se parece com nenhum animal que já tenha visto e o pior é que ela está vindo na nossa direção.

Corro de volta pra onde minha mãe está sentada, grito que tem uma COISA vindo e mãe a gente precisa sair daqui! Ela me olha e tenta entender meu desespero, então olha para onde eu aponto e fica de repente calma.

"Ah, é só o vizinho"

Eu sem entender nada, desde quando vizinhos na roça aparecem dentro de círculos de luz e PELO AMOR DE DEUS o bicho mudou de forma, agora tem braços e pernas e está chegando perto!

"Tarde, dona Margarida. Essa é a sua filha?"

A coisa fala. Tem uma voz arranhada e um sotaque muito esquisito, mas eu ainda estou me decidindo a respeito do que me espanta mais quando ele (aquilo) parece se dirigir a mim:

"Saudações. Venho do Sistema Andrômeda. Ainda tem café?"

Continua...
Visitas inesperadas no Sítio das Margaridas
Última atualização: Aug 31, 2014
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