14. Crime e Castigo

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HELENA

A menina levantou os olhos do livro assim que a mãe saiu de casa e sorriu largamente. Seu plano estava saindo do papel e iria ser tudo perfeitamente perfeito.

Não tinha como nada dar errado naquele dia. Ao menos era o que ela pensava.

Lívia estava cochilando no sofá e Benito estava perdido no Instagram curtindo fotos de jogadores de futebol e de modelos que ele nunca conheceria na vida. Enquanto isso, Helena estava lendo Crime e Castigo do Dostoiévski.

Ela sabia que não tinha nada a ver com o personagem principal. Ela não havia matado ninguém e a culpa não a corroía a cada instante. A garota não se sentia culpada por ter enganado a mãe, na verdade, ela havia dado para a matriarca uma nova chance de ser feliz.

Era alguém que merecia um prêmio e não um castigo.

Concentrou-se novamente em sua leitura, mas não durou muito tempo. O som alto da campainha assustou-a e viu Benito dar um pulo de susto no tapete. Lívia não moveu um músculo sequer.

— Mamãe deve ter esquecido algo — Benito comentou baixo e permanecendo deitado no tapete.

— Ela tem a chave, não tem porquê tocar a campainha — Helena explicou levantando-se da poltrona e caminhando lentamente para olhar pela janela e ver quem estava no portão.

Seu coração deu uma leve acelerada ao ver quem estava parada na calçada. A jovem mulher de 19 anos estava carregando uma sacola de compras, estava com o cabelo, antes preto, pintado de loiro e os olhos azuis estavam escondidos por trás dos óculos escuros.

— Tia Júlia! — Helena falou alto chamando a atenção de Benito que levantou rapidamente.

— Ela veio sozinha? — ele perguntou tenso. A irmã notou o olhar aflito do menino.

— Sim — respondeu baixo. — Acorda a Lívia enquanto eu abro o portão.

Assim que abriu a porta da sala, notou o sorriso largo que a tia soltou ao vê-la.

— A mais inteligente veio abrir o portão — a mulher comentou rindo.

Quando Helena abriu o portão e a tia entrou na garagem, sentiu em seguida o braço da mais velha envolvê-la em um abraço cheio de saudades.

— Quase um ano que não te vejo! Você cresceu demais! Está mais linda do que nunca — Júlia comentava enquanto passava as mãos pelo rosto da sobrinha. — Estava morrendo de saudades!

— A gente também sentiu sua falta — Helena falou sincera em meio ao abraço.

Júlia Becchio era a irmã caçula do pai. Quando Leandro faleceu ela tinha apenas 11 anos. Havia sido difícil para ela também. Havia sido difícil para muitas pessoas.

— Onde estão os outros desnaturados? E a sua mãe? — perguntou enquanto caminhava para entrar na casa e retirava os óculos de sol.

— Eu estou morrendo de preguiça, tia desnaturada — Lívia comentou sentada no sofá enquanto prendia os fios de cabelo em um coque.

Helena notou que enquanto a tia abraçava Lívia, Benito estava de pé. Tenso. Era nítido que estava desconfortável. Ela o entendia. Na última vez que os dois se viram a situação não estava nada boa.

Benito Bonito — a tia falou parando de frente com o sobrinho. — Você, em específico, faz mais de um ano que eu não vejo — Júlia comentou com tristeza e analisando o sobrinho com atenção. — Você está um rapaz lindo. Seu pai estaria muito orgulhoso.

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