13. Urso

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ANA CAROLINA

Ana Carolina encarou os três adolescentes que estavam jogados pela sala com a típica expressão de preguiça pós-almoço. Benito estava jogado no tapete avermelhado e mexia concentrado no celular, enquanto Lívia estava deitada no sofá com as pernas pra cima e fechava os olhos lentamente, quase caindo no sono. Helena estava sentada na poltrona preta com um livro nas mãos e sorria em alguns momentos conforme passava os olhos pela página.

— Tem certeza que não querem ir comigo? — perguntou enquanto arrumava a barra da própria blusinha cinza.

— Curte o seu dia, mãe — Helena comentou sem tirar os olhos do livro.

— É, vai lá — Benito resmungou baixinho. Ana sabia que o filho ainda estava bravo pelo castigo, mas era um mal necessário.

E Lívia nem se deu ao trabalho de responder, apenas virou de costas para dormir mais tranquila.

— Ok, estou indo... última chance de me acompanharem — falou sugestiva enquanto caminhava lentamente para fora da sala de estar.

E assim que abriu a porta da sala e saiu pela garagem, Ana percebeu que realmente iria sozinha ao cinema.

Estava acostumada a sempre ter um dos três por perto para fazer qualquer coisa. Cinema sempre em família. Idas ao mercado sempre tinha Lívia, quando ia para o centro da cidade sempre havia Helena e quando decidia ir para o parque ecológico sempre tinha Benito.

Isso sem contar as vezes em que Nico foi companhia garantida. Definitivamente não estava habituada a sair sozinha.

O caminho até o shopping não era longo, no máximo 15 minutos de carro se tivesse sorte de não pegar trânsito.

Quando entrou no shopping, o local estava quase vazio. Uma terça-feira pós-almoço era um ótimo dia para se ir ao cinema, ainda mais um cinema gratuito.

Helena havia surgido com o ingresso no dia anterior. Comentou que tinha ganhado em um concurso, mas que iria se concentrar no Projeto Interdisciplinar que faria Marcelo e achou que a mãe se divertiria um pouco.

Ana poderia até se divertir com o filme, mas estava sentindo-se sozinha e velha. Seus filhos adolescentes não queriam mais sair com ela e a sensação de tempo passando rápido demais estava assolando todo o seu ser. Mãe careta e ultrapassada. Esse era o sentimento.

Decidiu que iria comprar uma pipoca e um refrigerante para se sentir menos patética.

Não teve muita pressa em entrar na sala do cinema já que os lugares eram marcados e, incrivelmente, a população brasileira tão acostumada a não seguir normas básicas de respeito e educação, acatava de bom grado os lugares marcados.

O filme era sobre alguma distopia. Ana não tinha visto o trailer, porque tinha esperança que Helena fosse contar metade da história antes mesmo de chegarem ao cinema.

Assim que sentou-se no lugar indicado, observou as poucas pessoas entrando. Um casal de namorados adolescentes que estavam abraçados, uma senhora de cabelos brancos com a netinha e então observou o homem que entrava sozinho carregando um balde de pipoca. Ela o conhecia de vista. Era o doutor Frederico.

O homem estava vestido formal demais para quem apenas ia ao cinema. Em poucos segundos ela percebeu que ele estava entrando na mesma fileira de poltronas em que ela estava sentada. No segundo seguinte ele estava ao seu lado.

Ele a encarava com os olhos castanhos curiosos.

— Oi — ele cumprimentou baixo.

— Oi, doutor — ela respondeu com um sorriso simpático.

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