Capítulo 27

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Você sabe, a minha questão com os meus pais era o ter que se explicar. O Lipe não precisou "assumir" que estava com a Dê. Todo mundo via os dois juntos e sacava o esquema. A minha mãe passou um puta sermão para a Dê sobre o como ela tinha que se aventurar pelo mundo, mesmo que isso implicasse dez anos de vida miserável para o filho dela.

E depois que eu contei sobre meus namorados, ela flagrou o Guto nuns amassos fodidos com a Bia e saiu comemorando.

Ou seja: a minha questão com a minha mãe é que ela era totalmente girl-power, mas desde que fosse dentro de um conjunto de condições e que não quebrasse nenhuma ordem social.

Quer saber por que inventaram o casamento? Repasse de heranças. Acredito que é por isso que sexo antes do casamento seja pecado: sem casamento, o filho que vem depois do sexo recebe o quê? É de quem? Que família tem que se responsabilizar pela criação? Isso é coisa bem antes da nossa sociedade, quando mulher também era propriedade e passava da família do pai para a família do marido, geralmente para manter aliança e riqueza dentro de certas famílias.

Casamento garante herança e garante herdeiro, não é, nem nunca foi, sobre amor. Meu pai casou com a minha mãe por amor, eu tenho plena certeza disso, mas não é o casamento que garante o amor, e sim o amor que garante o casamento. Deu para entender? É que eu fico nervosa e perco o fio da meada.

Agora, se vou eu, louca e meio feliz andando pela rua com o amor de dois homens, a quem eu pertenço? A quem ficam as minhas coisas? Para que família eu vou? A quem eu tenho que prestar contas no fim do dia e a quem eu tenho que pedir permissão?

Esse conjunto de condições para onde o Girl-power da minha mãe se guia se perde quando encosta na vida que eu levo. Eu não pertenço a ninguém. As coisas que eu tenho não são patrimônios. Eu não vou entrar numa igreja de véu e grinalda, mas vou segurar a calda do vestido de quem me pedir, com o maior prazer, porque eu sei que casamento é opcional e nem todo mundo vai querer casar.

Não se engane, também: a minha mãe continua genial, maravilhosa, eu arrasto um bonde por ela, ela é a coisa (digo, a pessoa) que eu mais amo no mundo. Até bem mais do que eu amo meu pai: mas quando a gente topa nos limites dela, dá para ver que ela quebra paradigmas profissionais sobre onde é o campo da mulher e onde é o do homem, quebra a jornada tripla comum entre todas as mulheres, mas não parou, nem mesmo por um segundo, para pensar no porquê ela ficou responsável pela minha educação e criação sexual e meu pai nunca deu um pio.

Ou no porquê foi tão fácil aceitar que o Lipe está com a Dê, o Guto está com todas as mulheres do mundo, e eu nunca estou com ninguém.

Parte porque é confortável para todo mundo que eu nunca dê trabalho. Que eu não tenha um milhão de namorados, que eu não tenha aparecido grávida, que eu tenha estudado até rachar a cuca. É mais fácil assim, Manuela dentro do quarto com seus dois melhores amigos, estudando sempre, sem dar trabalho, tirando boas notas e sendo bonita.

Porque é fácil criar menino quando a gente não liga muito com quem eles deitam ou quem eles amam. Ensine uma vez que sexo é feito com camisinha, que para os meninos não precisa mais nada. Quero dizer: o que muda na vida da minha mãe se o Lipe está com a Dê ou se o Guto está com a Bia?

(Alerta de spoiler: nada)

Mas muda um monte se eu tenho um namorado, dois ficantes, três casinhos, ou um filho. Por isso que mulher dá mais trabalho de criar. Você tem que mandá-la fechar as pernas, abrir os olhos e o sorriso, você tem que falar para ela tomar cuidado com o copo, com o tamanho do vestido, do decote, tem que falar para ela procurar um cara que a respeite, que seja trabalhador, que seja íntegro e que a mime.

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