Capítulo 4 - Infernus

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O dia se seguiu bem. Nenhum dos demônios ou humanos tinham percebido a minha presença entre as várias mercadorias e caixas que estavam na embarcação, o que eu já achava de extrema vantagem visando os últimos acontecimentos. Suspirei fundo e encostei a minha cabeça em uma das caixas. Uma coisa me incomodava muito mais do que a morte de Abred que já tinha sido traumática demais, como Geleal nos rastreou? Será que percebeu que Abred não era cego? Tive a impressão que ele seguiu sua presença com o olhar. Besteira! Ela somente nos viu uma só vez e nenhum dos outros demônios tinha notado que Abred era uma fada e ela, com um simples olhar, o fez.

Seria uma habilidade latente dos Generais do Rei Demônio? Se fosse... Será que notariam a presença do meu colar ou da fanier? Acabei ficando com quase tudo do Abred, poções, comidas, feitiços, explosivos, tecnologia, armas extras... quase tudo. Tudo que uma fada pronta para a batalha deveria possuir. Será que teriam a habilidade de sentir a origem disso também? Precisava saber da aparência dos demais servos dele, se continuar dando de cara com eles posso perder mais do que eu imagino.

Abred disse que me amava... E eu também não consegui salvá-lo como a Sam. Apoiei minha cabeça na enorme caixa em que estava apoiada com as costas. Não consegui nem perceber isso. Há quanto tempo ele deveria ter tamanho sentimento por mim para morrer por minha causa e enfrentar Geleal sozinho?

Em breve, estaríamos em Infernus e faltaria somente mais uma cidade para a Capital, já que desviei a rota de uma outra grande cidade. Eram seis grandes cidades demoníacas incluindo a sediada pelo Rei. Samael foi eliminado. Geleal eu consegui atrasar. Se eu conseguir passar por mais um deles, no máximo, se tudo der errado, pelos dois, poderei chegar até o Rei. Agora não tem ninguém para me proteger, somente eu mesma e o dia tinha acabado de começar.

O cansaço tinha se instaurado no meu corpo mais rápido do que eu senti e meus machucados oriundos do resquício da explosão ainda doíam, porém já era noite, quando dei por mim. Olhei para o céu e ao invés do céu avermelhando que estava acostumada. Alguns demônios voavam em forma de peixes enormes, brilhantes e claros.

Uma cena assustadoramente bela para alguém estava acostumada com a vermelhidão do horizonte.

Eles passavam lentamente como se estivessem no rio dentro do céu. Suas bocas cheias de dentes abriam e fechavam lentamente. As luzes vinham de algo em cima de suas cabeças e orientava seus olhos cegos e aparentemente sem direção alguma, contudo, sabia que eles tinham ideia de onde iam. Iam comer humanos, ou o que aparecesse no seu caminho e não pudesse se defender sozinho, durante todo o trajeto rio acima.

Um deles passou próximo ao nosso barco, muito maior do que a embarcação, e parou alguns metros perto do meu rosto. Eu me calei, não podia fazer nenhum tipo de movimentação. Ele ficou me observando com aqueles olhos vidrados em que eu podia me ver refletida como nos espelhos de Geleal. Se ele avançasse teria que fazer alguma coisa, porém esperei até o último segundo para ver se os demais demônios iam proteger suas vidas e suas preciosas mercadorias. Entretanto, não precisei, o peixe desviou de mim e foi se aproximar de outros humanos, quando foi afastado do barco.

Neste momento, pude respirar aliviada. Ser comida por um peixe demônio seria o fundo do poço, Geleal e Samael ficariam desapontados por terem perdido para mim, Frida nem se fala, me tiraria do inferno para esfregar na minha cara que deixei o meu treinador morrer para ser comida de peixe, na verdade, ele era o homem que me amava não? Bufei. Mesmo assim consegui tirar um sorriso do meu rosto, em meio a aceleração que estava arrancando meu peito fora; aquele peixe foi a maior luz que eu já tinha visto em vida.

Uma medonha luz na escuridão.

Consegui comer alguma coisa e esperei ver a luz mudar o céu para um vermelho mais claro novamente. O sol escarlate reviveu a paisagem com cores rubras novamente. A viagem devia estar próxima do fim. Entretanto, a embarcação parou na margem do rio e comecei a ouvir vozes próximas. Eles faziam uma parada antes para tirar alguma mercadoria?

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