Quarenta e dois - Alice

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É possível gritar a ponto de destruir tudo ao seu redor? É possível gritar a ponto de tentar reduzir pessoas a pó, a ponto de querer que sua garganta sangre até explodir, até tudo estar tão terrível e desfeito que é melhor apenas continuar gritando e gritando?

No momento em que a espada atravessou o peito de Jax, tudo deixou de existir. Tudo ali era grito e caos e eu queria que o mundo todo desaparecesse.

Quando finalmente parei de gritar o suficiente para conseguir abrir os olhos, Quentin estava limpando a lâmina da espada nas próprias roupas. Ele não parecia feliz, nem perturbado, nem... nada; o que talvez fosse o mais assustador.

Sem dizer uma palavra, Quentin andou até mim, aqueles olhos azuis vazios, e me pegou pelo braço, me forçando a ficar de pé.

Talvez fosse o emeu ódio, mas assim que consegui me equilibrar, puxei o braço com tanta força que Quentin não conseguiu me segurar. Eu não sabia o que ia fazer, mas me joguei de novo sobre o corpo de Jax, determinada a ficar perto dele até que alguém me tirasse dali a força. Havia tanto sangue e, quando coloquei minha mão em seu peito, não havia... não havia mais nada ali.

Corri as mãos por seus cabelos, deixando que aquela vez as lágrimas caíssem. Elas escorreram dos meus olhos, até pingarem de encontro com as dele, que ainda estavam em seu rosto. Comecei a soluçar, até que a mão de Quentin apertou meu braço mais uma vez.

- Isso já está ficando patético - disse ele. - Terminem com o irmão e a fada. Livrem-se dos corpos.

Tentei empurrá-lo, mas daquela vez eu estava exausta demais para conseguir. Quentin me arrastou, eu aos tropeços, e quando estávamos a um passo de sair da torre, alguma coisa no guarda o fez parar.

Ele estava com os olhos arregalados, a boca entreaberta, olhando fixamente para alguma coisa no chão. Alguma coisa que estava exatamente onde o corpo de Jax tinha ficado.

Quentin franziu as sobrancelhas e eu só consegui ver o que estava acontecendo quando ele se virou.

Era o corpo de Jax, era sim. Mas ele estava brilhando.

- O que...?

A fada, ainda amarrada às correntes, começou a rir.

- A maldição! Eu falei, eu falei!

Mas não podia ser. De que adiantava a maldição se quebrar com a morte?

Eu não sabia direito o que pensar, ninguém se mexia dentro da torre. Raios de luz começaram a se desprender da pele de Jax, tão brancos e tão fortes que tive que cobrir meus olhos. Meu coração batia rápido, sem entender o que estava acontecendo, mas talvez antecipando que algo importante estava tomando forma.

Então, algo começou a se... materializar com os raios de luz. Era difícil de ver no começo, mas era como os raios estivessem se organizando, tomando uma forma incrivelmente humana, ainda que fantasmagórica. Um a um, os raios foram cessando, sumindo, quase sugados pela forma, até que o corpo de Jax voltou a ser apenas aquilo, um corpo, e a luz tinha tomado a forma de uma mulher.

Eu a reconheci antes mesmo que ela se virasse. Seria difícil depois de ter visto tanta cosa pelos olhos dela.

- Evangeline.

Ela se virou, sorrindo para mim, uma aparição feita de luz, não totalmente corpórea. Era como se ela estivesse em alguma lugar entre esse mundo e o de que ela tivesse vindo.

- Alice - disse ela quase em um suspiro, em um golpe de ar. - É um prazer finalmente conhecer você.

Eu não sabia o que fazer ou o que pensar. Coisas demais estavam acontecendo em um espaço muito curto de tempo e meu cérebro não estava conseguindo processar tudo aquilo. Abri a boca, depois fechei. Evangeline apenas sorriu, depois se virou, o vestido de luz rodopiando, e se abaixou ao lado de Jax.

- Você finalmente conseguiu - disse ela, colocando as mãos no rosto dele como eu tinha feito. - Depois de tanto tempo você finalmente conseguiu. Não amar uma mulher ou ser amado por ela, mas perceber... Conseguir amar aqueles mais próximos de você, dar uma chance a eles... E esse amor, Jax Trent, é que te libertou da sua maldição.

Evangeline se abaixou e beijou os lábios de Jax.

A torre explodiu em luz. Eu, Quentin, os guardas, todos nós nos viramos, protegendo os olhos, e ainda assim, pequenos pontos escuros ficaram flutuando na frente dos meus olhos, mesmo depois que a luz se foi. E quando ela se foi e eu finalmente consegui olhar para o corpo de Jax, ele estava... piscando.

- Jax! - gritei e corri, me jogando ao lado dele, cansada demais para chorar ou o que quer que fosse.

Ele se sentou, me olhando, confuso. Seu nariz ainda estava um torto, mas o sangramento tinha parado.Olhei para seu peito,ele fez a mesma coisa, nossas mãos indo ao mesmo tempo para o coração dele. Um coração que batia.

Nossos olhos se encontraram e ele sorriu.

- Alice.

Nunca tinha ficado tão feliz em ouvir meu próprio nele. Eu me joguei nos braços de Jax, sem me importar se ia doer ou não, querendo sentir o coração dele batendo contra o meu, querendo sentir o calor do corpo dele, vivo, junto ao meu.

Quentin estava respirando pesado, seus olhos nem sequer piscavam. Ele andou até um dos guardas e tentou puxar a espada dele, mas o homem não a entregou. Pelo contrário, o guarda a segurou com firmeza.

- A espada. - Quentin rosnou.

O homem franziu as sobrancelhas, como se não estivesse entendendo o que Quentin estava falando.

- E por que eu te entregaria minha espada? - ele perguntou.

- Eu sou seu príncipe!

O guarda começou a rir.

- Príncipe? Eu só sirvo a um príncipe, e esse príncipe se chama Jax Trent.

Eu parei, Jax também. Quentin deu um passo para trás, seus olhos horrorizados.

- O que...?

Tudo ficou muito quieto por um longo segundo. Jax olhou para mim, piscando algumas vezes. Então um sorriso começou a se espalhar por seu rosto.

- Vossa Majestade - disse o guarda. - Por acaso este... jovem está importunando?

Precisei reprimir uma risada. Jovem estava longe de ser um insulto, mas a cara de Quentin fez parecer que ele tinha sido xingado das coisas mais obscenas possíveis. Jax abriu a boca para responder, mas não houve tempo para ouvir o que ele dizer, porque naquele momento um pequeno "pof" ricocheteou no ar, e Rumpelstiltskin apareceu.

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