Despertar do Sonho

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Narrado por Giovana

Você nasceu para resistir ou sofrer abuso?

— Eu admiro a sua coragem, sabia?

Ela sorria enquanto desembainhava sua espada e erguia seu escudo.

— Não é coragem, é determinação.

Eu não estava com pressa de começar aquele duelo.

— E qual é a diferença?

Eu detestava aquele sorriso. Não só porque era obrigada a reconhecer a beleza de Catarina, que conseguia ser elegante como uma donzela mesmo de armadura. Aquele sorriso asqueroso... Não, não era asqueroso, ela era asquerosa, mas seu sorriso era lindo. Perfeito em seu rosto oval, harmônico abaixo do nariz impecavelmente comprido e ressaltando seus olhos azuis vibrantes. Até seu cabelo loiro e cacheado preso ao rabo de cavalo era bonito. Ela era detestável por inteiro. E eu estava entrando em seu joguinho sádico. Mais uma vez.

— Eu não tenho medo de você. Mas não é bravura. Eu só não vou assistir você humilhar os iniciáticos de braços cruzados.

Eu era o oposto de Catarina. Não só porque tinha consciência do meu rosto quadrado e anguloso, nem um pouco feminino, ou do cabelo escuro e curto e olhos cinzas, nada charmosos nos bailes da corte. Apesar de nós duas termos sangue nobre, éramos paladinas, deveríamos nos considerar irmãs, porém ela acreditava que os fracos não tinham lugar nas nossas fileiras, enquanto eu acreditava que os fracos deveriam ser fortalecidos. Ela acreditava que a Ordem deveria ter autoridade sobre o povo, eu que a Ordem deveria servir ao povo. Ela acreditava no sacrifício de tropas e eu apenas no meu sacrifício.

— Esse é o nosso oitavo duelo, Giovana. Te derrotar de novo só vai mostrar que eles não devem ficar no meu caminho.

— Vai mostrar que ninguém deve abaixar a cabeça pra você, não importa se você sabe usar uma espada, se sabe assustar os novatos ou se acha que seu sangue nobre te dá o direito de ser uma megera.

Ela riu.

— Olha quem fala, a filha do traidor.

Minha mão involuntariamente contraiu no cabo da espada. Ela se deliciou com o momento em que conseguiu me ferir com seu insulto. Satisfeita, lentamente apontou sua lâmina em minha direção.

Não havia mais nada a ser dito.

Eu apenas desembainhei minha espada, ergui meu escudo e avancei contra a minha rival.

Focando no equilíbrio entre ofensiva e defensiva, mantive a proteção à minha frente enquanto rotacionei meu torso e girei minha espada até descrever um círculo vertical no ar, de trás para frente, e acertar a espada de Catarina, que aparou meu golpe. Disputamos força por um segundo, até ela conseguir desviar minha arma e dar um empurrão com seu escudo, ganhando espaço e logo apontando sua lâmina em minha direção de novo. Sem rodeios, ela estocou e eu bloqueei sem dificuldades, ela descreveu um semicírculo horizontal na altura do meu tórax e eu defendi de novo, então estocou numa velocidade surpreendente em vez de voltar à guarda, uma manobra imprudente, mas que surtiu efeito, pois ela abriu um corte no meu braço da espada, soltando um filete de sangue e provocando uma dor incômoda.

Usávamos equipamentos iguais, espada bastarda e escudo de corpo, ambos maiores e mais pesados do que a maioria das armas, o que significa que havíamos treinado muito até aprender a empunhá-los. Contudo, meu foco sempre foi a proteção, enquanto o dela, o ataque. Eu usava as duas mãos no combate, enquanto ela mantinha a posição do escudo firme e a espada sempre em movimento, ameaçando e fintando até encontrar uma brecha na minha defesa.

Recuamos alguns passos, respiramos para recuperar o fôlego e ela atacou primeiro dessa vez. Dois passos e um salto com a espada erguida, uma manobra letal e inapropriada para um suposto treinamento. Como eu não tinha tempo para questionar ou argumentar, apenas ergui meu escudo e bloqueei o golpe aéreo quando ela desceu com todo seu peso em cima de mim. Firmei meus pés no chão para não me desequilibrar e ela aproveitou para acertar o joelho no meu estômago. Sabendo que ela não me deixaria recuperar a guarda, estoquei contra sua perna, raspando minha espada no seu tornozelo, arrancando sangue e um grunhido de dor, o que tirou sua concentração e me permitiu bloquear uma tentativa desajeitada de ataque. Próximas demais para duelar com nossas armas, recuamos um passo cada uma, sem desgrudar nossos olhos, ela mancando com uma perna e eu tremendo com o braço da espada.

— Nós não deveríamos lutar — com o sangue fervendo, pensamos coisas surpreendentemente lógicas. — Uma hora, nossa batalha vai chegar a um fim definitivo — eu sempre pensando em proteger antes de atacar, nem que fosse proteger a mim e a minha rival ao mesmo tempo. — E eu não quero que isso signifique uma matando a outra.

Em resposta, ela apenas sorriu, abriu os braços e, com um dedo na espada, gesticulou e me convidou para finalizar a disputa daquele dia.

Com um brado instintivo, estoquei, esticando meu braço e minha espada ao máximo. Em resposta, ela girou o corpo, esquivando e pegando impulso para um ataque horizontal. Bloqueei com meu escudo por pouco e devolvi outro ataque horizontal, que também encontrou o seu escudo. Demos um passo para trás, não recuando e sim ganhando espaço para mais golpes. No mesmo impulso que se afastou, ela voltou com uma estocada e eu deixei sua lâmina raspar pelo meu escudo, ganhando brecha e tempo para estocar também. Sem opções e ágil como um felino, ela saltou para a direita, ergueu seu escudo e desceu por dentro do meu, atingindo meu antebraço. Se não fosse pela manopla, meu osso teria se partido ao meio.

Minha mente paralisou e, quando me dei conta, estava de joelhos no chão, apoiada na espada, com uma dor lancinante no outro braço e com Catarina chutando meu escudo para longe do meu alcance. Olhei minha rival, que estava resplandecente em seu sorriso.

E eu estava derrotada.

Ela não precisava fazer mais nada, pois já estava tudo óbvio. Ou ela podia simplesmente me chutar para terminar de derrubar meu corpo no chão ou acertar o cabo da espada na minha cabeça e me desmaiar. Mas não, ela não estava satisfeita. Ela não precisava fazer mais nada e justamente por isso ela fez.

Ainda zonza, vi sua espada no alto, vindo em direção ao meu rosto. E senti o corte diagonal descendo da minha testa, pelo meu nariz e maçã do rosto, até minha bochecha, numa precisão surpreendente para me mutilar sem me matar. O sangue jorrou farto aos meus pés enquanto senti meus olhos inflamarem em ira. Sem pensar em mais nada, devolvi o golpe, erguendo-me do chão para o ataque final. De baixo para cima, na diagonal, fazendo o caminho inverso: da bochecha, pela maçã do rosto, nariz e até sua testa. E juro que pude ver seu sorriso se desmanchando em incredulidade no último momento.

Ela caiu para trás e agarrou seu rosto, não mais perfeito, aos gritos. Quando se deu conta do que aconteceu, sua única reação foi desmaiar por conta da perda de sangue.

Minha visão enegreceu enquanto eu sentia o meu sangue escorrendo pelos meus lábios e pingando pelo meu queixo.

Mas eu fiquei de pé até o final.

Até sentir meu corpo cair no vazio, leve como uma pluma, mesmo coberto por aço e sangue.***


***

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