Sonhos de uma noite de verão (Rejane)

71 0 4

Sonhos de uma noite de verão

Nos primeiros anos, as férias de verão de Pedroca e Mariinha eram na casa de praia da avó. Naqueles janeiros quentes, longe dos cuidados exagerados e das cobranças dos pais, as crianças curtiam o clima de liberdade beirando à permissividade que só avós são capazes de proporcionar.

As manhãs eram ocupadas pelas atividades de mar: banhos intermináveis, castelos de areia, catação de conchinhas, corrida contra as ondas, enterro de banhista, guerra de areia, pegação de jacaré, picolé de ki-suco, fuga do maldito protetor solar... Durante as tardes, costas vermelhas besuntadas de hipoglós, dormia-se a sono solto nas redes da varanda.

Quando o sol se retirava e o céu escurecia, era hora de observar as estrelas. Ah, como elas se exibem despudoradas nas noites quentes do verão nordestino! Competem em tamanho, em brilho, em forma. Ligam-se como num jogo de pontinhos para formar desenhos extravagantes: animais, flores, rostos, casas, cidades, monstros, sereias... E às vezes, quando a sorte é grande e a vista boa, é possível ver alguma delas jogando-se lá de cima num mergulho infinito. Nesses raros momentos, o observador atento tem direito a formular um desejo. Apenas um! Deve pedir de olhos fechados a primeira coisa que lhe vier à cabeça, muito depressa antes que a magia se desfaça.

Pedroca tinha quatro anos quando viu sua primeira estrela cadente. Jurou a vida toda que ela caíra no mar e, ao imergir, levantara um jato dágua como o das baleias. Mariiinha tinha quase dois e viu apenas uma minhoca brilhante desenhando o céu. Os dois falaram ao mesmo tempo, rápidos como tinham sido ensinados pela avó.

- Quero virar uma águia feroz, com asas grandes e garras pretas. Quero voar bem alto!

- Quelo ser glande!

A avó fez os pedidos genéricos de sempre, que fugiam à regra por serem muitos para a mesma estrela: felicidade para filhos e netos, saúde para a mãe idosa e, como ninguém é de ferro, para si mesma o enésimo amor.  

O tempo passou e as férias na praia foram ficando menos frequentes. Até cessarem de vez. Quando finalmente voltaram à varanda do passado, Pedro e Maria eram adultos bem-sucedidos, tinham constituído suas próprias famílias. Já não andavam juntos como no passado, moravam em metrópoles distantes e tinham outras prioridades. Decidiram fazer aquela última viagem a sós para se despedirem da avó doente e, quem sabe, resgatar com ela as lembranças mágicas da infância remota.

Entre tantas histórias, a mais viva na memória dos três era a da estrela cadente. As crianças tinham conseguido realizar os sonhos daquela noite. O dele, o de voar; o dela, o de crescer. Pedro se tornara um habilidoso piloto de caça e aguardava para dali a um mês a última bateria de testes que poderia levá-lo à estação orbital internacional. Maria fizera uma carreira de sucesso numa multinacional e virara uma espécie de celebridade nos programas econômicos de tv. Até a avó, mesmo sem ter seguido a regra do pedido único, foi atendida: viu filhos e netos felizes como desejara, sua própria mãe viver até os 88 anos e um novo amor, o definitivo, surgir em sua vida.

Dividiam aquelas lembranças sentados lado a lado numa rede da varanda. Os jovens falavam alto e riam muito, ligeiramente bêbados com suas taças de cabernet. A velha, famosa na família pela tagarelice do passado, agora preferia o silêncio sereno atrás de sua máscara portátil de oxigênio.

Foi quando a magia se repetiu. Rápidos, sem pensar duas vezes, Pedro e Maria fecharam os olhos e fizeram seus pedidos. A avó permaneceu calada, talvez porque já não houvesse o que desejar. Apenas apurou os ouvidos e sorriu:

- Quero voar ainda mais alto!

- Quero ser pequena de novo!

 Rejane

TEMA: SONHOS   PRAZO: 30/8Leia esta história GRATUITAMENTE!