As páginas se encontravam todas preenchidas, pelo menos as dez primeiras. A caligrafia era cuidadosa e precisa, sem margem para erros. Cantarolando algumas notas pra conhecer a melodia me surpreendi, nunca havia escutado algo parecido. Talvez, ele tenha encontrado uma nova inspiração, após dez anos sem mudar a ideia ainda me parecia arriscada.
Soltei um longo e forte suspiro. Nessas últimas semanas ele vem se cobrando tanto, dizendo que essa é A Composição. A cereja de todas as suas composições, a qual levaria ele para o topo.
Música era seu melhor remédio mas também sua obsessão.
A primeira vez que eu o vi ele estava tocando piano. Lembro-me de sorrir ao ouvir a melodia vindo do teatro, pensei que fosse algum professor ou alguma caloura curiosa e talentosa, uma oportunidade de fazer mais amigas. Afinal, ninguém além dos professores tocava no piano do teatro, mesmo sendo uma faculdade de música nenhum aluno tinha interesse no velhinho desafinado.
Mas, naquele banco de madeira que rangia como uma porta estava Yixing, o mais novo calouro da faculdade de música e o primeiro aluno em anos que seguia o curso de piano. Me surpreendi e logo sai da sala, não queria ser vista. Meu coração estava acelerado. Ao longo do tempo nós acabamos esbarrando na livraria, na sessão de partituras.
Foi silencioso e rápido, tudo na nossa relação foi dessa forma.
Trocamos gestos atrapalhados e despedidas silenciosas e seguimos rumo, até meu último dia na faculdade, ele estava indo pro segundo ano. Não era mais um calouro bobinho, havia ganhado um imenso destaque no ambiente estudantil.
Ficamos presos na biblioteca e interagirmos , por puro desespero na verdade. Era o último dia de aula do campus, ninguém mais voltaria e o sinal do celular dele era péssimo por enquanto que o meu não tinha bateria. Tivemos q esperar a tarde toda e a noite toda para notarem nossa falta e finalmente nos acharem.
Mas naquela hora não era mais um problema, havíamos ficado próximos em algumas horas e quando subi ao palco, dias depois para pegar meu diploma era ele que estava em pé, batendo palmas e gritando meu nome. Orgulhoso de mim.
Não demorou para namorarmos, muito menos para dele me pedir em noivado e nosso casamento também não demorou. Éramos jovens e esperávamos que tudo desse certo e não queríamos perder tempo, estávamos tão certos da felicidade infinita. Nem discutimos sobre as coisas que poderiam dar erradas nem das vezes que as responsabilidades iriam bater na nossa porta.
Fomos tão jovens, impulsivos e descuidados.
Mas nós nos amamos por dez anos, uma década compartilhado felicidades e tristezas. Amando e sendo amados. Até que veio o primeiro adultério, da parte dele. E então tivemos uma das piores brigas das nossas vidas, onde eu despejei todos os anos de frustação e medo e principalmente que estava grávida.
Nós tínhamos parado de discutir naquele momento, ele estava tão em choque que me arrependi no momento que falei as palavras, não queria que ele fosse o pai de alguém tão pequeno e precioso pra mim. Fugi de casa naquele dia. E então veio o segundo adultério, da minha parte. Jonghyun me deu todo o apoio e foi impossível não me apaixonar por ele. Pedi o divórcio que foi fielmente negado por Yixing.
No meu sétimo mês de gravidez consegui o divórcio e após o nascimento de EunJi eu casei com Jonghyun e com os anos tivemos SunHee. Eu tinha duas belas filhas e um marido esforçado e trabalhador, que se esforçava tanto quando eu na relação.
Yixing não se casou de novo, apenas focou na carreira.
Eu o vejo poucas vezes, tudo que sei vem da boca de EunJi e as vezes de SunHee que vai com a irmã para a casa dele. Suspiro, eu estava na sala de estar dele, encarando suas partituras e esperando ele trazer minhas filhas. Geralmente não é assim, ele as deixa na porta da minha casa mas hoje ele pediu para que eu vinhesse.
As meninas passam correndo, dizendo que vão para o carro. SunHee tem apenas nove anos mas faz tudo que EunJi faz e a mesma já é quase uma adolescente, com apenas treze anos toda vez que a olho lembro dele. Espero o mesmo descer as escadas para agradecer e me despedir, sei que Jonghyun deve querer que eu vá logo pra casa com essa tempestade.
- Bem, agradeço pelo tempo e peço desculpas pelo incômodo. Boa noite. – Dei alguns passos para trás e me virei em direção a porta.
- Eu ainda gosto de você, sabia? – A voz rouca se fez presente depois de tantos anos, minhas pernas me traíram e eu congelei no lugar. – Sei que não tenho direitos para isso e sei que não deveria falar sobre depois de tantos anos mas não acho que deva esconder também. Tudo tem uma finalidade. – Ouço sua risada, essa era nossa frase. – Amanhã, irei me apresentar. Finalmente eu terminei a composição. Eu quero que você vá.
As palavras fecharam minha garganta, aquilo foi repentino. Virei lentamente e o olhei, Yixing parecia um pouco mais magro e abatido, definitivamente exausto.
Assento suavemente com a cabeça.
- Eu estarei lá.
Foi um peso passar aqueles segundos ali, quando cheguei em casa fiquei atordoada. Mas no dia seguinte eu estava na porta do teatro, segurando um buquê de rosas vermelhas e me apoiando no braço de Jonghyun.
Foi majestoso.
Aquela era a composição de Yixing com mais destaque, de todas que eu ouvi. Ele finalmente chegará aonde sempre sonhou, fiquei tão orgulhosa, me levantei e o aplaudi como fazia em suas apresentações antigas. Olhei nos seus olhos quando fomos ao camarim e notei o olhar dele sobre Jonghyun, lhe entreguei as rosas junto de um sorriso, e com gestos atrapalhados silenciosamente nos despedimos.
Será que faríamos diferente se soubéssemos que na volta Jonghyun perderia o controle do carro?
Será que faríamos diferentes se soubéssemos que aquela seria a última vez que trocávamos gestos atrapalhados e palavras silenciosas?
O que Yixing me falaria se soubesse que eu iria morrer naquela noite?
Será que ele soube que eu chamei pelo nome dele?
Será que soube que eu sempre o amei?
Jonghyun era meu amor
Mas não minha alma gêmea.
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°•Details•°
RomancePequenos detalhes são o que mais marcam. ◇ Coletânea de One-shot sobre os membros do EXO em situações tristes ◇
