0.3 O encontro

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Abri os olhos deixando minha visão se adaptar com a luminosidade, ou a falta dela. Então suspirei aliviada por ter sido apenas um pesadelo e nada mais além de um pesadelo.

Onde eu estava?

Como eu chegara ali?

De quem eram aqueles olhos verdes?

Essas e outras perguntas rondavam a minha mente.

Corri meu olhar pelo local a procura de responder algumas das minhas perguntas e com um pouco de sorte encontrar a porta que poderia me levar para bem longe dali. Então notei que nunca estivera ali.

Estava um pouco escuro, porque a única iluminação vinha da lareira que também me fornecia um pouco de calor.

O chão e alguns dos moveis estavam com uma leve camada de poeira, mas cheguei a conclusão que havia um morador por causa do cabide cheio de jaquetas e casacos novos localizado no canto direito.

Uma televisão estava de frente para o sofá que eu estava sentada, de forma que minhas pernas não tocavam o chão, e uma almofada repousava em meu colo. Senti o vento frio de outono entrar pelas cortinas brancas de uma das janelas abertas e mudei o foco do meu olhar. Estava diante de paredes sem nem um tipo de cores vivas, mas que ainda assim me enchiam de curiosidade com seus diversos quadros cujos retratos talvez pertencessem aos antigos moradores.

O cheiro viciante que eu não sabia identificar também estava presente ali.

— Você gosta de flores? — ouvi uma voz masculina me perguntar, olhei ao redor, mas não encontrei o dono da voz. Porque ele se escondia de mim em meio a escuridão?

— Amo. — respondi gaguejando. Meus pés e mãos estavam gelados, meu coração batia a mil por segundo. Um silêncio se fez presente enquanto eu olhava diretamente para a almofada em meu colo, onde descansava uma rosa. A rosa que eu colhi. Quando a segurei em meus dedos, notei que o dedo que tinha sido espetado, agora se encontrava com um curativo. 

— Porque colheu a minha rosa? — o desconhecido perguntou e dei de ombros. No entanto me fiz a mesma pergunta: Porque diabos eu colhi aquela rosa? — Responda!

— Então é assim que trata suas visitas? Se escondendo delas, fazendo interrogatórios e nem sequer se apresenta? Cadê suas boas maneiras? — pensei alto e assim que disse tais palavras, me arrependi. Aproveitei minha coragem que surgiu do nada. — E para sua informação, colhi a rosa porque eu a queria para mim.

— O que faz aqui? — ele perguntou, a voz ecoava pelo cômodo me assustando.

— Não sei, simplesmente desmaiei e vim parar aqui... — respondi acariciandoas pétalas da rosa em um tic nervoso.

— Não foi isso que eu perguntei.

— Então deveria formular melhor suas perguntas. — respondi pensando alto.

— O que faz aqui? — ele repetiu a mesma pergunta, me fazendo revirar os olhos.

— Eu... estava fugindo, não tinha para onde ir, corri pelas ruas e parei de frente para a floresta, lembrei me de todas as lendas que dizem sobre este lugar e adentrei. — expliquei dando um resumo geral do capítulo anterior, caso tenha esquecido.

O silêncio voltou a reinar por segundos, que para mim pareceram séculos. Então minha pele se arrepiou com seu toque quando ele enrolou uma mecha do meu cabelo.

— Não toque em mim! — mandei elevando meu tom de voz, enquanto me afastava de seu toque.

— E se eu não quiser? — o desconhecido me desafiou sussurrando em meu ouvido.

Pensamentos daquele ser desconhecido fazendo coisas terríveis comigo, se passaram por minha mente e cheguei a conclusão de que tinha de sair dali antes que ele resolvesse fazer algo.

Então, ignorando o medo, me levantei meio desnorteada, então vi a porta. Caminhei em sua direção transparecendo a maior calma do mundo, então quando pus a mão na maçaneta para gira-la, senti uma mão sob a minha. Olhei para aquela mão e subi meu olhar encontrando um par de olhos verdes.

Pelo amor de Deus, o que eu fiz de errado? Isso é um castigo?

— Aonde você pensa que vai? — ele perguntou.

— Para bem longe de você, seu cretino! — respondi e abri a porta, antes de fechar, continuei. - Não ouse me seguir.

A cada passo que dava, sentia mais frio e medo. Tentei abraçar meu corpo, em uma tentativa falha de aquecer meu corpo.

Parei de andar, quando percebi que não tinha para onde ir e que estava correndo sem rumo algum. Estava perdida no escuro.

Vi pares de olhos brancos em meio às moitas. Paralisei no lugar, será que era muito tarde para voltar a casa, não tão segura, mas, quentinha daquele estranho? Logo, estava assustada, apavorada e totalmente arrependida.

Respirei fundo, olhei para uma moita bem próxima à mim e vi o que parecia ser um par de olhos brancos me olhando de volta. Mudei a direção sem fazer movimentos bruscos e ainda me sentia observada. Não importava para onde eu ia ou quantos passos dava, porque em todos os lados haviam mais e mais olhos brancos assustadores medindo cada mínimo detalhe das minhas reações.

Aquilo era uma cilada.

Meus olhos se encheram d'agua, a respiração ficou entrecortada e o coração a mil por hora.

Pensei em gritar, chorar ou correr até meu pés implorarem por socorro, mas sabia que não conseguiria chegar muito longe quando ouvi um uivo próximo a mim.

Um dos lobos pulou em minha direção e me assustou tanto que me faz cair no chão no mesmo instante.

Fechei os olhos, esperando a dor ou a morte, como uma covarde, mas nada veio. Quando abri os olhos, o vi na minha frente como um escudo forte e corajoso. Ele olhou para mim pelo canto do olho, mas logo voltou seu olhar para os lobos.

— Não ouse encostar nela. — o reconheci pela voz, era o mesmo ser que me fizera perguntas, a medida que os lobos mostravam os seus caninos.

— Protegendo uma humana? — O maior lobo, que parecia até ser o líder da matilha, perguntou totalmente debochado.

Espera, um lobo estava falando? Meu joelho ralado ardia, porém nada muito grave. Mas eu só poderia estar delirando.

— Não é só uma humana, é uma humana invasora de florestas e eu preciso dela por mais afrontosa que ela seja. — ele me "defendeu", se a situação não fosse assustadora demais, eu teria dado risada.

Então eles começaram a travar uma batalha entre si. Assustada, me encolhi ainda mais. Os lobos pularam em cima dele, e o arranharam com suas garras afiadas, e o morderam com seus caninos. Ele os derrubou e os chutou, mas eram tantos, ele derrubava um e dois subiam em cima dele. Então ele fez um galho se acender em puro fogo e o jogou na direção dos lobos que fugiram para longe. A chama se apagou segundos depois, e seu corpo foi de encontro com o chão.

"Esse é o momento de fugir". Meu subconsciente alertou. Me pus de pé, me forcei a andar, mas meu joelho não ajudava. Quando passei por ele, e o vi ali deitado no chão, seus cabelos castanhos bagunçados, sua pele repleta de ferimentos, não consegui deixa-lo ali naquele estado.

Me abaixei perto dele, encostei minha cabeça em seu peito para checar se ainda estava vivo. Seu coração batia lento. Suspirei aliviada.

Estava vivo.

*
Obrigada por ler até aqui. 

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Até o próximo capítulo!

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